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Introduçao a Psicoterapia da Gestalt

di G. Paolo Quattrini

Metapsicologia e fenomenologia

Na relação de ajuda a teoria é fundamental à prática, no sentido que os conceitos explicam porque se faz o que se faz na prática, e assim a respalda. Se poderia dizer que a teoria está para a prática assim como a manga está para a panela: é difícil manejar uma panela sem a manga. Agora, há mil maneiras de se trabalhar com Gestalt-terapia: o que falarei, é da forma de trabalhar onde o ponto de partida é a palavra fenomenologia e tudo o que está por detrás desta palavra. Penso que a fenomenologia seja o ponto de onde Perls se afastou de Freud e começou a fazer algo diferente.

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O perfeito, performação e performance estética, fenomenológico existencial, hermenêutica, experimental

afonso da fonseca

Estética fenomenológico existencial hermenêutica experimental, performática, per(form)ativa, em gestalt terapia e em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial

Di Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

Não conheço ópticas mais separadas do que a do artista que observa a elaboração de sua obra (quer dizer, se observa a ele próprio) com o olhar de uma testemunha; e a do artista ‘que esquece o mundo’: este esquecimento é a essência de qualquer arte monólogo; a arte monólogo assenta no esquecimento, a arte monólogo é a música do esquecimento.”“.

F. Nietzsche. A Gaia Ciência.

… faça o que eu digo
faça o que eu faço
aja duas vezes antes de pensar

(in Bom Conselho. Chico Buarque de Hollanda)

A especificidade do logos metódico da Gestalt Terapia, e a sua contribuição para a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, — e para a psicologia e psicoterapia, de um modo geral — ,é, em grande parte, a do desenvolvimento experimental, e a experimentação do valor da psicologia e da psicoterapia de uma estética da existência, como condição metódica para a vivência estésica, per-form-ativa, de atualização fenomenológico existencial de possibilidades por parte do cliente. A Gestalt Terapia, constitui-se, experimentou, e experimenta-se, assim, como uma estética performática experimental da existência. Ou seja, a Gestalt Terapia entendeu o radical valor existencial deste modo de ser; e, em particular, a riqueza de sua propiciação, no âmbito do trabalho psicológico e psicoterápico, como metodologia hábil no propiciamento da atualização de possibilidades por parte do cliente.

Importante notar, que a atuação do terapeuta e do psicólogo, no âmbito inter humano de sua relação com o cliente, e com o grupo, é, alinhada com esta concepção metodológica, igualmente, estésica, estética, experimental, e performática; dramática (ativa), poiética (fenomenativa existencialmente generativa). Isto significa que não é teórica, não é reflexiva, não é moralista, não é científica, não é técnica, não é comportamental.

Ou seja, da mesma forma que a Gestalt Terapia preconiza e propõe, para o cliente, a oportunidade pontual e regular, e o desenvolvimento da habitualidade, do estilo existencial de uma estética performática experimental – estética performática esta de sua atualidade, de suas questões, e dos elementos de sua crise existencial — ela propõe esta mesma estética performática fenomenológico existencial experimental, como logos metódico, para a ato ação do psicoterapeuta e para a ato ação do psicólogo.

De modo que é extremamente interessante, para o esclarecimento de concepção e método da Gestalt Terapia, em Psicologia e Psicoterapia, a compreensão dos sentidos particulares, valores e interesses, do modo de ser desta estética performática experimental da existência, e de sua ato ação, atualização.

O logos metódico da Gestalt Terapia – com o qual ela contribui – é, assim, o logos de uma estética existencial experimental e, especificamente, o logos metódico de sua vivência performática – vivência fenomenológico existencial, fenomenativo existencial — per-form-ativa.

A performance é o modo de ser, fenomenológico existencial experimental, especificamente ativo e poiético, da vivência. Através do qual se dá a atualização fenomenoativa do possível, enquanto tal, como fenômeno existencialmente vivido. Esse processo generativo no ser-no-mundo configura o que chamamos de poiese.

De modo que, nem teórica, nem prática – nem técnica, nem comportamental, nem objetivista –, nem científica, nem moralista, muito menos realista –, a metodologia da Gestalt Terapia é, especifica e eminentemente, estésica, uma este(sia)ética, experimental, performática, e poiética.

Nietzsche diria, física, em contra/posição a quaisquer das possibilidades abstratas da meta-física. Física, vivencial e vividamente vivida; é, assim, a performance.

Na performance assim (entendida do ponto de vista fenomenológico e existencial), naturalmente, o possível, a possibilidade, enquanto tais, vivencialmente transitam — pela ação — de uma condição de pré-compreensão, compreensão, interpretação1 e objetivação. Concluindo-se, assim, fechando-se, como o per-feito, no processo da performação, do perfazimento, da perfeição (a gestalt).

PER

O prefixo per significa: cabalmente através de, plenamente através de. Enquanto que feição, do Latim, significa ‘fazer inteiramente, acabar, terminar, perfazer; fabricar (com arte)2.

A “forma”, num sentido fenomenológico existencial, refere-se às formas do vivido. De modo que temos, do ponto de vista fenomenológico existencial, a performance, a performação, especificamente per-feição, perfazimento, como designação do processo da vivência fenomenal, no qual a forma se constitui, como processamento pré-compreensivo, a partir da força do possível fenomenalmente vivido; e se configura como tal, como atualização compreensiva; meramente compreensiva, e/ou mais ou menos inter humana, e/ou mais ou menos objetivativa.

Especificamente, o im-per-feito é o inconcluso. O inacabado, o incompleto. O mal executado; e, portanto, feito incorretamente; defeituoso, malfeito, incorreto3. Cujo ciclo (digamos) da per-feição, o ciclo de sua performance, de sua per-formação, de seu completo perfazimento, do perfazimento de sua totalidade, não se concluiu, não se fechou. O imperfeito, é a performance, a performação, a perfeição, o processo de formação figura-fundo, encalacrados. Inter-rompidos, inacabados, mal acabados, abertos.

Ah, a frustração e a queixa da mulher quando o homem não quer e/ou não sabe esperar; e o abraço e o beijo encadeados e conclusivos da inter humana dialógica da per-feição.

PERFEITOS E PERFEIÇÃO TEÓRICOS?

Freqüentemente, os sentidos de perfeito, de perfeição, obedecem a critérios abstratos de avaliação, critérios alienados do físico processo de sua per-feição, processo vivencial de elaboração fenomenológico, fenomenativa, existencial. Podemos, ter, assim, abstratos, o “perfeito”, a “perfeição” meta-físicos… Não vivenciados, mas abstrações, exatamente, do processamento da vivência de sua perfeição, de seu perfazimento, de sua per-formação.

Uma contradição em termos, naturalmente. Porque o que caracteriza o perfeito é, exatamente, a vivência do processamento de sua elaboração fenomenológico existencial, o seu perfazimento como vivência, o processo de seu perfazimento, como vivência física, corpo-ativa.

Mas podemos pensar, assim, e muito vigora, o “perfeito” meta-físico. De uma “estética” que, curiosamente, não é estésica! Mas, mais própria e especificamente, é conceitual e abstrata; e que, por isso mesmo, especificamente, não é estética. É moral e moralista.

O perfeito metafísico se constitui como adequação ótima de algo a um seu modelo teórico; ou, mais especificamente, a um seu conceito. Um “perfeito” teórico, que nada tem de vivencial, de vivenciado. Mais que isso, um “perfeito teórico, especificamente como afastamento da vivência fenomenal de ser-no-mundo, um “perfeito” teórico que nada tem da experienciação do‘perfazer’, da processualidade vivencial do ‘fazimento’ (perfazimento, performance, performação), vivido. Que nada tem de ‘feitura’, como encadeamento de atu(aliz)ação vivida de possibilidade, como possibilitação. Mas que se constitui de comparação e de avaliação, teóricas, de adequação, do fato ao conceito4, comparação e avaliação abstraídas, e especificamente afastadas, alienadas, da vivência.

PERFORMANCE ESTÉTICA

Naturalmente, na concepção e metodologia da Gestalt Terapia, e em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, não se trata deste tipo de “estética” teórica e conceitual, abstrata, meta-física; na verdade, estática. Trata-se, de fato, da estética, que podemos dizer, redundantemente, da própria estesia da vivência do perfazimento: estética da própria estesia da vivência do perfazimento. Assim, podemos conceber o perfeito como processo e resultante da própria vivência experimental, fenomenológico existencial hermenêutica, processamento encarnado, da per-feição; não meta-físicos, mas físicos. O feito, per-feito, resultante do processo – da travessia fenomenativa — da per-feição .

E, mais uma vez, como diria o Riobaldo Tartarana (aliás, per-feito por Guimarães Rosa), a verdade, a per-feição, não se põe nem no início nem na chegada, mas na travessia

Na travessia…

Este o sentido deste “per”, que está em per-feito, em per-feição, em
per-formance, em per-formação em per-fazimento. Perfeição de …

Travessia vivencial da feição, a per-feição é, especificamente, o perfazimento, a per-formação, a performance, num sentido de processualidade primária e eminentemente vivencial, fenomenal.

Performance que é sempre dialógica, na medida em que é toda ela e sempre dialógica do possível e de sua possibilitação. Performance que é freqüentemente inter humana. Performance que pode, meramente, ser, como mencionamos, o desdobramento (“subjetivo”) de uma compreensão, na performação compreensiva (atualização compreensiva) (a “caída da ficha”…) E/ou que pode ser mais ou menos performação, perfazimento, objetivativo. Este mesmo, mais, ou menos, organismicamente compreensivo; mais ou menos voluntário ou espontaneamente expressivo, mais ou menos motor, ou sensível, mais ou menos objetivativo. Ainda que, sempre, na ótica da expressividade sentida e vivida, e caracteristicamente desproposital.

De parte de um sujeito?

Em seu momento próprio, não exatamente. Pelo menos no que interessa, e é vital.

Na medida em que, fenomenal, o processo da performance se desenvolve como vivência espontânea de desdobramento de possibilidade. Que, como tal, é vivido e vivencial, fenomenal, fenomenativo. E não é, assim, da ordem das relações sujeito-objeto. Da mesma forma que não é da ordem das relações de causa e efeito, que não é da ordem do útil e da utilidade; que — como possível pré-compreendido e possibilitação — não é, mesmo, naturalmente, da ordem da realidade.

Similarmente, como observamos, o processo vivencial da performance, não é da ordem da teoria, não é da ordem da prática, nem da ordem do comportamental; não é da ordem do científico, muito menos da ordem do técnico. Não é da ordem do explicativo. É, especificamente, da ordem do compreensivo, da ordem do dialógico, e potencialmente da ordem da dialógica compreensão inter humana. É da ordem do poiético, do hermenêutico. Que, atu(aliz)ação de possibilidade, transita, como vivência, de pré-compreensão de possibilidade, para a sua possibilitação. Em seu característico, e próprio, despropósito poiético.

Estamos, assim, bastante distantes do “perfeito”, e de uma “estética”, meta-físicos, estabelecidos por comparação, teoricamente, abstratamente (abstraídos, justamente, do processo vivido da per-feição).

Precisamos, assim, em Gestalt Terapia, em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, desta compreensão do que é o perfeito, a performação, a performance fenomenológico existencial experimental. A compreensão do caráter eminentemente vivido, pré-reflevivo, pré-conceitual, intuitivo, fenomenal, hermenêutico, fenomenológico existencial, experimental, ativo, per-form-ativo (poiético)(de travessia da vivência da duração), do processo de sua feição, per-feição; especificamente física, corpo-ativa, estésica, est-ética…

Ou seja, precisamos da compreensão do quanto este processo ativo — mais ou menos compreensivo/intuitivo, mais ou menos espontâneo/voluntário, mais ou menos compreensivo ou motor (o próprio “caminho do meio”) –, o quanto este processo é, em seu momento e movimentação próprios, especificamente, vivência corporal, vivência corpoativa, sentidos, sentidação. Estésico, assim, neste sentido (vivência configurativa das sensações, como totalidades compreensivas específicas, e especificamente diferentes da soma de suas partes, sensibilidade, capacidade de perceber o sentimento da beleza).5 Propiciado por uma est(esia)-ética. Por uma Estética. Que é um modo de proceder (uma ética), uma atitude de ação, que privilegia o, fenomenal, o ponto de vista estésico. O ponto de vista, fenomenológico existencial, da sensibilidade, da vivência, da capacidade de engendrar e vivenciar o belo, o perfeito.

Deste modo, a vivência gestáltica, o logos metódico da Gestalt Terapia, e da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, além de se caracterizar como sendo fenomenológico existencial experimental, é, por isso mesmo, uma metodologia estética e performática experimental. O interesse metódico em Gestalt Terapia é o da experiência experimental da vivência estésica da per-feição, no estésico engendramento próprio do perfeito, e na vivência e apreciação estésicas de sua perfeição. Uma estética, como processo hermenêutico de atualização de possibilidades, no âmbito da atualidade e atualização existencial do cliente. Uma estética como procedimento metódico do terapeuta/psicólogo.

Estética como atualização meramente compreensiva, muito freqüentemente. Ou estética como atualização objetivativa. não importa. O que importa é a natureza per-form-ática experimental da sua experiência. E o desenvolvimento do ponto de vista estético, como critério existencial. Ao mesmo tempo que o desenvolvimento de um estilo existencial performático experimental, vigoroso, robusto, e sensível, no eterno e incontornável processo existencial de atualização de possibilidades, no humano ser-no-mundo. Processo que do possível e do próprio mundo se nutre, no enfrentamento com, e no afrontamento criativo do mundo e da vida coisificados; e no afrontamento e enfrentamento criativos da fatalidade da própria coisidade e da própria coisificação da realidade realizada, fatalizada.

O EXPRESSIONISMO E O LOGOS METÓDICO ESTÉTICO PERFORMÁTICO DA GESTALT TERAPIA E DA PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL

Histórica e paradigmaticamente, não é certamente difícil acompanhar a linha constitutiva deste caráter fundamental da concepção e método da Gestalt Terapia e da psicologia e psicotrerapia fenomenológico existencial.

De um modo mais imediato, este caráter performático advém, de modo fundamental, do caráter performático do Expressionismo. Que, seminalmente, influenciou o desenvolvimento da concepção e método da Gestalt Terapia.

Num segundo momento (ou primeiro), a influência vem do perspectivismo nietzscheano, que já é fonte do perspectivismo, e do caráter performático do Expressionismo, enquanto movimento das artes européias da segunda metade do século XIX, e primeira metade do século XX.

Pois bem, a experiência com teatro, em especial com o teatro de Max Reinhardt, que desde os quatorze anos de idade é experiência fundamental na vida de Fritz Perls, e no desenvolvimento da Gestalt Terapia; a experiência de Laura Perls com teatro e com expressão corporal, igualmente importantes, no desenvolvimento da formulação conceitual e metodológica da Gestalt Terapia, são experiências com artes cênicas e expressivas, de natureza e filiação especificamente Expressionistas. São experiência que profundamente marcarão o caráter do paradigma conceitual e metodológico da Gestalt Terapia.

O Expressionismo6 surgiu, nos finais do Século XIX, como um imenso, vigoroso e essencial afrontamento à hegemonia do Positivismo, do objetivismo científico, da ciência, da objetividade, do princípio de realidade, e da própria realidade.

Sinalizava o que viria a ser indicado, depois, pela fenomenologia existencial, pela filosofia da existenz, e pelo existencialismo. Ou seja, que, fora, e distanciados, desse modo de sermos que é a experiência fenomenal, fenomenológica e fenomenativa do vivido (que não é da ordem do conceitual e do teórico; que não é da ordem da objetividade, nem da ordem da subjetividade, nem mesmo da intersubjetividade: porque não é da dimensão da dicotomia sujeito-objeto; que não é da ordem da dimensão da vivência das causas e dos efeitos, dos meios e dos fins; que não é da ordem da utilidade, portanto; nem da ordem da realidade, na medida em que é, antes, essencialmente prenhe de possíveis não realizados), distanciados deste modo de sermos da vivência fenomenal, eminentemente experimentativa, estamos exilados do que nos é ontologicamente mais essencial.

A Experiência fenomenal do vivido não se movimenta no âmbito da explicação, da teoria e da conceituação; também não se movimenta no eixo das causas e dos efeitos, da causalidade. Não é da ordem da utilidade, ainda que dela brotem todos os úteis e as suas utilidades, mesmo que dela provenha a objetividade do mundo. Sobretudo, é experiência que não é da ordem da realidade (no sentido objetivo do termo), na medida em que não é da dimensão da objetividade; e é, muito mais, impregnada de possível e de ação possibilitativa, do que de real.

Pois bem, fora e distanciados dessa insólita experiência fenomenal e fenomenativa do vivido, sinalizava o Expressionismo estamos exilados. O mundo, enquanto realidade objetivada não é a casa do homem, como diria Heidegger.

Num momento em que o mundo e a vida coisificados avizinhavam absurdos e terrores nunca imaginados, a vivência fenomenativa humana reivindicava expressão, em seus próprios termos. E veio o Expressionismo, representado, naquele momento, pelo pavor do Grito, de Munch.

O Expressionismo reivindicava, então, expressão e lugar para este modo de sermos que é o vivido, o fenomenal, o existencial; potente e possibilitativo, poiético. Mesmo, e em particular, contra a estranha sensação de absurdidade, por não ser esta dimensão essencial do humano e do mundo, da ordem das relações sujeito-objeto, da ordem das relações de causa e feito, da ordem da utilidade, nem mesmo da ordem da realidade.

O Expressionismo7 surge, então, como um estilo, artístico.Mas, na verdade, com muito mais amplas implicações; implicações em particular culturais, e especificamente existenciais. Um estilo artístico e existencial, que intenta centrar-se na, e concentrar, a experiência dita subjetiva: a experiência fenomenal, fenomenológica e fenomenativa do vivido.

De modo que, centrada, e própria, e otimamente, concentrada, possa esta experiência manifestar-se potente, fluída, expressiva, e integralmente; como ato expressivo, como performance, per-form-ação. A performance que configura a obra de arte, ou o desempenho artístico, como per-feição, como per-feito; se transita, plena e fluidamente, pelo ciclo de sua complementação, ciclo de sua per-feição, de seu perfazimento, na expressão, ato(aliz)ação, mais ou menos compreensiva, e sempre fenomenativa; mais ou menos objetivativa, da forma de um possível, que se atualiza em sua per-feição.

A experiência do vivido podendo concentrar-se como uma mola, ou como a musculatura de uma pantera no prenúncio do bote; e botando, atu(aliz)ando o bote expressivo, na performance.

Assim nasceu, e atualizou-se, uma Isadora Duncan, e sua dança expressionista; a arte dos pintores expressionistas, dos escultores, do teatro expressionista, do cinema expressionista (uma idéia na cabeça, e uma câmera na mão…), da arquitetura expressionista, da pedagogia expressionista… da Gestalt e da Gestalt Terapia…

Sempre, o artista expressionista é um artista performático, neste sentido. Não apenas nas artes cênicas, como no teatro e na dança, por exemplo. Nas artes plásticas, os escultores e os pintores são, igualmente, performáticos expressionistas. Concentrando artística e sensivelmente a vivência fenomenativa de sua inspiração, como a musculatura de uma pantera armando e presentificando o seu bote, e botando, na conformação performática, no perfazimento, de um per-feito artístico, como obra de arte. Assim, mesmo um pintor ou um escultor expressionista é performático.

Num sentido radical8, são eminente, própria, e especificamente, estésicos e
est-éticos, os performáticos expressionistas. Centram-se, e buscam adensar, a vivência fenomenal, a sensibilidade, corpo, vivido, sentidos, na vivência da configuração de seus possíveis, e de suas possibilitações; e investem-se estésicamente, o que quer dizer esteticamente, na performação vividamente vivida, e expressiva, de um per-feito como feito artístico.

A beleza e a magnanimidade, a incomensurabilidade, fascinação, graça e mistério, deste feito, a sua perfeição, advêm do processo próprio de sua feitura – específica e propriamente per-feitura. Que, essencialmente, permite e configura-se como a atualização per-feita, em sua formação e ex-pressão (ex-pulsão) plenas, de um possível; na estesia do processo de sua per/feição.

Toda a sua guiação, portanto, a guiação da perfeição e da performance, é, eminentemente, estésica; especificamente estética. A aquiescência na estética, e a vivência estésica e pré-compreensiva de uma configuração de possíveis. E a estética, e a estesia, de sua atu-ação, mais ou menos compreensiva, ou mesmo no lusco-fusco organísmico da compreensão; mais ou menos objetivativa, mais ou menos motora, mais ou menos voluntária/espontânea, mais ou menos interhumanamente inter-ativa.

A estética e a estesia de dar à luz, como feito, como perfeito – e bendito, vale dizer – algo de absolutamente singular, novo, criativo, original e belo, em sua acabada per-feição.

A vivência estética, estésica, do sentimento de beleza advém da estesia de ser-se e exercer-se à imagem e semelhança de Deus, ou de ser-se e exercer-se divino, no processo da perfeição criativa.

VIGOR, BRILHO, INTENSIDADE, FASCINAÇÃO, UNIDADE, GRAÇA

Todo este processo de feição, de perfeição, perfazimento, é, enquanto processo vivido — vividamente vivido –, processo de formação de figura e fundo. Como indicou Perls9, este processo de formação de figura e fundo tem, é, em si, a fonte da avaliação e do valor. E tem características, fenomenológico existencialmente vividas, intrínsecas e peculiares, tais como vigor, brilho, intensidade, fascinação, unidade, graça

Tais características estéticas fenomenologicamente intrínsecas ao processo de formação de figura e fundo decorrem especificamente da qualidade estésica, estética, vivencial, do processo da performance, do processo da perfeição. Que é propiciado, vivido, concluído, e avaliado, esteticamente, o que quer dizer estesicamente.

São características do processo de formação figura-fundo performático que se perdem na imperfeição: ou seja na im-per-formação. Quando a per-formação, a performance, é interrompida em sua per-feição, e resta o per-feito inconcluso, inacabado. Específica, e propriamente, imperfeito, encalacrado e interrompido, aprisionado, no processo de sua per-feição.

PERFORMANCE E A POSSIBILIDADE DO DESEMPENHO HISTÉRICO. A VIRTUALIDADE É A DOENÇA.

De um modo curioso, podem ser aparentemente próximas, ainda que decididamente inconfundíveis, a performance e a histeria.

E, a bem da verdade, o próprio Expressionismo chegou a ser acometido em certos momentos pela confusão, e pela ameaça do desempenho histérico. Que meramente simula a performance; na sua insensibilidade, e impotência, para a vivência da perfeição, e para a oferta ao mundo de algo perfeito a partir de possíveis.

A própria Gestalt Terapia, e mesmo a sua cultura, já foram afetadas pelo mal entendido. Talvez o seja menos, hoje. O risco, aliás, é corrente, na medida em que a confusão entre performance e desempenho histérico grassa, panepidemicamente, na cultura da modernidade. Certamente como uma aversão ao possível e à possibilitação, e em conseqüência de seus investimentos radicais na mímesis, na imitação e na simulação, na cultura do espetáculo e do parecer.

Creio que a advertência com relação à possibilidade da confusão entre performance e desempenho histérico já é feita no I Ching10, no Hexagrama 61. Que é representado pela pata de uma ave sobre um ovo, a chocá-lo.

Se o ovo estiver efetivamente choco, fecundado, e contiver um embrião, o choco (o ato de chocar) chegará a termo, na geração de um pintinho.

Mas, se o ovo não estiver fecundado, por mais que a ave o choque, dele não resultará um pintinho…

Suprema metáfora da ação… A ação que decorre de uma “verdade interior”, ou seja, que está em si emprenhada, impregnada, de possível, é como o desempenho, a performação, perfazimento, de um ovo fecundado. Em seu momento oportuno, dará à luz o fruto perfeito de sua novidade.

A ação que não decorre de uma verdade interior, que não se enraíza num possível e em sua atualização, não gerará frutos nem novidade, e será estéril.

O “embrião” da perfeição, e do que especificamente podemos entender como ação, como ato, como fruto e novidade – diferentemente do desempenho histérico — é a impregnação estésica e estética pelo possível, e a sua performação, perfeição, em um per-feito.

Simulação, o desempenho histérico, não está fecundado por este “embrião”, pela vivência fenomenal do possível; e pela disposição para a perfeição, para a performance, por ele alimentada e potencializada, no engendramento de um per-feito. Infenso e hostil ao possível e a sua possibilitação, infenso e hostil à novidade, à criação, à mudança, o desempenho histérico fecha-se para eles, e é comportamento estéril. Mera virtualidade.

E esta virtualidade — que se impermeabiliza para o possível, reprimindo-o, quando poderia atualizá-lo, em sua urgência e emergência, no processamento de sua perfeição –, é a doença propriamente moderna, insidiosa e panepidêmica.

Prestemos atenção, pois, a virtualidade é a doença.

Nada mais distinto, portanto do que performance estética e desempenho histérico

[]

PERFORMANCE E SENTIDO DO TRÁGICO

Uma última consideração, importante.

A de que a vivência do possível e de sua atualização na per-feição, a performance, de um perfeito, demanda eminentemente como condição a estética e a estesia do sentido trágico, tal como Nietzsche o recuperou dos Gregos antigos.

Atualização de possibilidades, eminentemente, a vivência estésica do possível, esteticamente propiciada, demanda e configura a superação da medida do estabelecido como tal, em sua individualidade; e a sua superação.

Na performance, e em decorrência da performance, nada será como antes. O preposto, e suposto, sujeito, estabelecido ao nível da realidade coisificada, desmesura-se de sua individualidade e de seu tempo próprio. Na vivência de um modo de ser que não mais comporta a dicotomia sujeito-objeto, pelo menos até o fim do processo da perfeição. Jamais será o mesmo preposto. Mudam as suas condições e o seu mundo objetivado, muda ele próprio, no engedramento da novidade do possível perfeito.

De modo que a vivência da performance, o engendramento do perfeito, na atualização do possível, determinam sempre finitudes. O sentido do trágico é exatamente a vivência compreensiva dessas finitudes, e a afirmação delas, como afirmação estética do possível e de suas forças formativas, da perfeição, da performance.

Sempre a alternativa entre a identificação com o que se fina, e declina na coisidade; ou a identificação com o incerto e aventuresco mergulho no possível e na possibilitação, como per-formação, como per-feição, dele decorrente; a identificação com a vivência estética da beleza e do belo na perfeição e no perfeito, per-formado.

Para o sentido do trágico, desde sempre e sempre, esta identificação com a vivência da potência do possível para a per-feição; a opção inquestionada pela identificação com o vigor, brilho, intensidade, fascinação, unidade, graça da perfeição e dos per-feitos

PERFORMANCE, ARTE MONÓLOGO E AMÚSICA DO ESQUECIMENTO. TOMADA DE INCONSCIÊNCIA, E DRIBLE DE CORPO NA CONSCIÊNCIA.

Em contraposição ao desempenho histérico, simulado, e dissimulado, da virtualidade, a performance, a perfeição, tem tudo da integração da arte monólogo, que se diferencia da arte diante de testemunhas, de que fala Nietzsche11, no aforismo 367 de A Gaya Ciência. Uma arte, a arte monólogo, em que o ator é todo ação, DRAMA. Arte monólogo eminentemene dialógica, ativa, fenomenoativa, experimental e poiética. Sem a possibilidade de que o ator em sua integração como tal possa configurar-se subsidiariamente como um observador de si mesmo, enquanto re-primiria a força do possível, e a sublimaria…

Tudo o que se pensa, escreve, pinta, compõe, ou seja, tudo o que se esculpe e constrói, revela ou da arte monólogo ou da arte diante de testemunhas. (…) Não conheço ópticas mais separadas do que a do artista que observa a elaboração de sua obra (quer dizer, se observa a ele próprio) com o olhar de uma testemunha; e a do artista ‘que esquece o mundo’: este esquecimento é a essência de qualquer arte monólogo; a arte monólogo assenta no esquecimento, a arte monólogo é a música do esquecimento.”“.

A característica do esquecimento é essencial à performance estética, e tema caro à filosofia da vida de Nietzsche. Isto porque, o que muito nos interessa, o processo da perfeição, a performance, em sua concentração fenomenativa, caracteristicamente instaura um esquecimento, é momentum de esquecimento. De modo que o esquecimento é mesmo uma condição específica de sua momentaneidade.

Nietzsche investe, a marteladas, contra a supervalorização da consciência. Um erro a supervalorização da consciência, diria ele, supervalorização que é da ordem do reativo, e não do ativo. A supervalorização da consciência constitui-se em supervalorização da memória, e supervalorização da história.

No âmbito desta supervalorização, proscrita a possibilidade do modo de ser do esquecimento, fenece miseravelmente a potência do modo de ser possível, e da possibilidade da performance estética que ela pode engendrar.

No sentido da garantia das condições da vivência perspectivativa, estética, performática, do possível, e de sua possibilitação, Nietzsche12 dirá:

(…) De fato, está mais do que no tempo de avançar contra os descaminhos do sentido histórico…

O homem teria de ler (na história) assim como Goethe aconselha que se leia o Werther: como se ela clamasse, ‘sê um homem e não me sigas!’13

Mais importante do que seguir a história é performá-la. E condição essencial da performance, do momento propriamente performático, é esta estética monólogica, retifica e ativa do esquecimento.

Todo agir requer esquecimento (…) Portanto é possível viver quase sem lembrança, e mesmo viver feliz, como mostra o animal; mas é inteiramente impossível viver sem esquecimento, simplesmente viver. (…) há um grau de insônia, de ruminação, de sentido histórico, no qual o vivente chega a sofrer dano e por fim se arruína, seja ele um homem ou um povo ou uma civilização.14

nas menores como nas maiores felicidades é sempre o mesmo aquilo que faz da felicidade felicidade: o poder esquecer ou, dito mais eruditamente, a faculdade de, enquanto dura a felicidade, sentir a-historicamente.15

E possa ser assim entendida e ponderada minha proposição: ‘a história só pode ser suportada por personalidades fortes, as fracas ele extingue totalmente’.16

Nesses efeitos, a história é o oposto da arte: e somente quando a história suporta ser transformada em obra de arte e, portanto, tornar-se plena forma artística, ela pode, talvez, conservar instintos ou mesmo despertá-los.17

1 v. FONSECA,

2 HOUAISS,

3 HOUAISS,

4 HEIDEGGER, M.

5 HOUAISS,

6 Expressionismo

7 Expressionismo

8 De tomar pela raiz, como diria W. Reich.

9 PERLS,

10 I Ching

11 Nietzsche, F, Gaia Ciência. Lisboa, Guimarães e Cia Editores, 1984. p. 276.

12 NIETZSCHE, F. PENSADORES, p.69.

13 Ibid.

14 op.cit. p 58. Grifo nosso.

15 Ibid.

16 op.cit. p 64.

17 op. cit. p 65.

Gestalt-terapia com famílias: transformando os sonhos em realidade

SandraBabele

I Congresso Latino de Gestalt

Título: Gestalt-terapia com famílias: transformando os sonhos em realidade

Autora: Sandra Salomão – Rio de Janeiro – Brasil.

a) Objetivo Geral do Workshop: abordar os projetos afetivos, profissionais e demais projetos que permanecem como sonhos não realizados. As perspectivas pessoal e familiar são enfocadas como figuras que surgem de um fundo transgeracional. Baseia-se teoricamente numa visão holística da pessoa e da família (Zinker, 1979) e se apóia nas concepções de figura e fundo (Perls, 1997), auto-regulação, ajustamento criativo (Perls,1997), de fronteiras e funções de contato (Polster, 2001), e na necessidade de trabalhos emocionais que utilizem a ação. Através das interações experienciais, as pessoas podem fazer contato com o novo como uma realidade concreta, superando o alcance limitado do nível verbal de resolução de bloqueios e dificuldades, conforme afirmam Zinker e Polster quando apresentam o método do experimento em Gestalt-terapia.

No ambiente relativamente seguro do workshop, será facilitada a awareness das dificuldades de realização dos sonhos, procurando obter sua resolução através de uma experiência interacional concreta, utilizando o experimento como uma forma de atuar sobre as fronteiras de contato (Polster e Polster) do indivíduo. As técnicas utilizadas relacionam os projetos pessoais e os familiares e objetivam proporcionar a realização dos sonhos na realidade aqui e agora do workshop. b) A metodologia do trabalho: inicia-se com uma mobilização corporal breve, e em seguida, é realizada uma viagem de fantasia com música de fundo. Com o objetivo de tornar possível uma awareness maior dos projetos, dos sentimentos e das introjeções envolvidos neles. Em seguida é feito um trabalho com material flexível – papel colorido – onde as dificuldades de realização dos sonhos na prática serão relacionadas aos sentimentos e percepções de si no processo de realizar. Nas etapas posteriores é efetuado um trabalho em pequenos grupos, para elaborar e integrar as várias etapas da experiência aqui e agora do workshop e a vida dos participantes. É pedido, então, que criem alternativas de lidar com os projetos, no aqui e agora do encontro, reorganizando concretamente o material trabalhado por eles. Os sentimentos e os valores introjetados são revistos para dar possibilidade à pessoa de criar uma resposta nova. Na finalização, os participantes compartilham a experiência e voltam aos sonhos, procurando relacioná-los com a experiência vivida no Workshop.

Esta técnica foi confeccionada com o objetivo de estimular, através do uso da metáfora dos sonhos o contato com os desejos, as capacidades e os bloqueios que existem na realização de projetos e de uma ação lúdica e experiencial, buscamos o aumento da awareness.

Os sonhos e projetos são carregados através das gerações. Sonhos presentes estão realizados por um fundo transgeracional. O uso de técnicas não verbais junto com as trocas de conteúdo favorecem o uso do ajustamento criativo e dos recursos positivos que as pessoas possuem.

Nos passos da fantasia dirigida constam etapas do processo evolutivo das famílias tendo como base três gerações.

As fases desse trabalho são:

  1. identificação dos sonhos e dos bloqueios

  2. resgate do fundo experiencial familiar, na família atual e tri-geracionalmente.

  1. restabelecimento da awareness

  2. contato com o material de trabalho concreto buscando uma nova Gestalt

  3. ajustamento criativo – awareness mais profunda na confecção e no compartilhar da obra realizada

  4. expansão de fronteiras – generalizando para a vida

  5. finalização – resignificando

Autora

Sandra Salomão Carvalho

Psicóloga, Mestre em Psicologia Social, Gestalt – Terapeuta pelo The Gestalt Training Center of San Diego (USA), especialista em Terapia de Família pelo Núcleo Pesquisas, Terapeuta de família e casal, Professora da PUC/RJ.

Rua Elvira Machado, 16, Botafogo. Tel 21 541-5186 .

E-mail ssalomao@ism.com.br Site: www.centrodegestaltterapia.com.br

Referências Bibliográficas

  1. PERLS, F., HEFFERLINE, R., GOODMAN P. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus,1997.

  1. POLSTER, E., POLSTER, M. Gestalt-Terapia Integrada. São Paulo: Summus, 2001.

  1. ZINKER, JOSEPH El Proceso Creativo Em La Terapia Guestaltica Argentina: Paidos 1979.

Gestalt pós-moderna: atendimento e supervisão em terapia de casal e família

SandraBabele

Di Sandra Salomao

A Gestalt-terapia surgiu junto com o pós-modernismo, no bojo das psicoterapias alternativas. Fritz Perls apresenta a nova abordagem através de um estilo pós-moderno típico de demonstrações públicas performáticas no melhor estilo espetáculo e com os resultados eficientes de uma psicoterapia bombástica, mais “rápida” do que a psicanálise clássica, aparentemente plena de técnicas que por si só seriam eficientes para a solução de problemas. Aparentemente o formato da nova terapia é apropriado ao ritmo acelerado da contemporaneidade, ao imediatismo de um aqui agora que rompe com a história. Isso faz com que ela apareça e seja facilmente assimilada em seu viés mais aparente.

Entramos na era da tecnociência, da massificação e hiper produção das informações. Do acúmulo de informações não processadas criticamente. O prazer está associado ao consumo de bens e serviços. O culto à imagem supera o valor do conteúdo. Equipamentos de última geração, pesquisas avançadas e clonagem convivem com a fome, a violência e o terrorismo e a destruição. O pós-modernismo parece ser divertido, mas realiza a síntese do nada, do vazio infértil, da ausência de uma interiorização e da busca de sentido para a vida. O sujeito parece inexistir, pois o Aparecer-é Poder impera autoritariamente. A aparência sem essência favorece o aparecimento dos hormônios, das próteses de silicone. Não há tempo para devaneios, de exercer-se humano. Os objetos da paixão tornam-se objetos de produção e não de relação. Expressar amor e afeto é coisa do passado ou romantismo superado.

Certamente é muito complexa a existência da Gestalt-terapia, bem como de qualquer outra psicoterapia nestes tempos pós–modernos, e sua proposta apesar de mais coerente com os tempos atuais, caminha na contra mão das sociedades avançadas, propondo a era da conscientização e do contato, para uma sociedade em que as pessoas vivem como se estivem em bolhas.

A Gestalt-terapia, na verdade, não é tão pós-moderna quanto parece. Sua marca existencialista e os fundamentos filosófico e metodológico fenomenológico fornece um instrumento de leitura e intervenção que trazem as influências das idéias modernas. O aqui e agora da Gestalt não exclui a história. Na verdade denuncia sua atualidade no presente . Dialética pura.

Um dos aspectos mais admiráveis da Gestalt-terapia refere-se a capacidade desta abordagem de manter-se com um sentido de atualidade. Desde que surgiu, há 50 anos, a Gestalt-terapia vem sendo capaz de fornecer um texto conceitual e uma atitude diante do homem, que permitem tanto uma compreensão dos impasses e processos humanos mais inesperados quanto à produção de um método e de instrumentos de intervenção que permanecem adequados às transformações econômicas, políticas, sociais e ideológicas que estiveram em cena durante a segunda metade do século XX.

Sendo assim, gostaria de trazer uma vertente que é a inequívoca vocação teórica e metodológica da Gestalt-terapia, para a psicoterapia com famílias.

A família está no epicentro do bombardeio pós-moderno. É como se estivesse sentada no vulcão. Sofre com as mudanças aceleradas e não tem tempo de assimilar as novas reorganizações. As novas Gestalten que convivem com modelos mais convencionais desafiam psicoterapeutas, educadores e pensadores. Casamentos e recasamentos, uniões efêmeras, divórcios numerosos e prematuros, vão formando um complexo jogo de relações enquanto envolvem contradições com os modelos de relacionamento convencional. Novos mitos e velhos mitos.

Quando a Gestalt-terapia surge ela já era orientada para ser utilizada em indivíduos em relação, e mais tarde para indivíduos em grupos e mais recentemente para famílias e grandes comunidades. Esta abordagem apresentou como um de seus princípios básicos o conceito de self, concebido como processo e como resultado de uma relação com o mundo e com os outros. Fazer contato e estar aware são as condições para realizar um ajustamento criativo. Não existe mais o intra-psíquico como uma estrutura, uma vez que o homem funciona enquanto processo, percebido enquanto totalidade. Também não há mais verdades absolutas sobre saúde e doença. O que há são experiências singulares no processo de viver. O contexto comanda. O trabalho com o cliente é orientado para as relações presentes em sua vida, sua responsabilidade e para a qualidade de seu contato e comunicação. O que determina os procedimentos de trabalho terapêutico é o processo de relacionar-se com a experiência do que ocorre aqui e agora.

todas as concepções da Gestalt-terapia definem o funcionamento do homem na sua rede de relações com o mundo.

Inevitavelmente, uma pessoa corre o risco de ser apreendida do ponto de vista terapêutico mais restritamente com restrições quando percebida fora de sua rede de relacionamentos. Abordá-la fora do seu momento e estilo de fazer contato restringe a apreensão da complexidade do seu existir. Se pensarmos que o homem está sempre em processo de auto-regulação organísmica com o mundo e procurando realizar ajustamentos criativos, o terapeuta assume que dialoga limitadamente com o cliente isolado de seu contexto, pois atua sobre narrativas e não processos relacionais. É óbvio que numa psicoterapia dialógica, podemos nos apropriar do estilo de relacionamento que se estabelece com o cliente e interagir a partir do seu próprio modelo de relação terapêutica.

Por motivos variados a atuação terapêutica com indivíduos separados de suas famílias continua sendo exercida em todo o mundo e é uma prática que não pode ser encarada como totalmente destituída de validade, desde que de fato o diálogo terapêutico, se estabeleça com o cliente enquanto alguém que é percebido como imerso no jogo das relações familiares e sociais.

O atendimento ao indivíduo com sua família ou da família em si parece mais adequado aos conceitos relacionais da Gestalt-terapia e à complexidade das sociedades atuais. Quando estamos começando um trabalho estamos pré-reflexivos, atentos à estética do relacionamento, a gestalt da família, ao seu jogo. Conteúdo e forma nos impressionam integradamente. Não ter a priori nos permite uma leitura e uma intervenção abrangente. Não há verdades fora daquela Gestalt e nós somos experts em trabalhar o entre. Atuar segundo a experiência presente e a fenomenologia de todos, terapeuta e família ou casal nos permite ultrapassar a era da tecnociência e utilizar a arte, a criatividade e o encontro como processo de transformação. A Gestalt-terapia usa a técnica e o encontro terapêuticoa serviço da relação e da reflexão. Nada menos pós-moderno.

Esta abordagem tem muitas faces. E uma das minhas preferidas é o enfrentamento das contradições, dos buracos da personalidade e o enfrentamento das ambigüidades, dos dilemas, das dicotomias e angústias do homem.

Se o que temos é caos, Perls o verdadeiro e falso pós-moderno diria: deixa o caos se organizar. Se há vazio, vamos fertilizá-lo. Se há uma gestalt rígida, vamos destruí-la. Para dar lugar a uma nova.Não pareça. Seja! Não engula, mastigue. Não seja um acúmulo de informações. Sinta. Suas falas já eram antídotos para o pós modernismo. Há cinqüenta anos atrás.

No pós-moderno parece não haver propostas novas. Na Gestalt o crescimento é inerente ao novo. Boa Forma é um conceito libertador. A verdade que ele carrega é estética e então cada família terá a boa gestalt que lhe convier. Neste tempo de verdades tão incertas, uma abordagem que trabalhe com a incerteza, com o variável, com a compreensão a partir do aqui e agora parece ser um bom suporte para o que virá após a destruição das verdades ocidentais.

Gostaria, então, de descrever esquematicamente com quais conceitos da Gestalt-terapia tenho sustentado conceitualmente e metodologicamente meu trabalho com famílias e nas supervisões a estudantes universitários e profissionais iniciantes.

Conceitos básicos da Gestalt terapia com casais e famílias:

Conceito de Gestalt – O todo e a parte, Holismo, teoria de campo, princípio da contemporaneidade.

Desde o intrapsíquico até o sistêmico

Noção de self como processo e definido na fronteira de contato

Descentramento do atendimento do indivíduo para o sistema de relações e de comunicação

Funções e disfunções de contato, fronteiras de contato

Homeostase familiar

Auto-regulação, às vezes disfuncional, ciclo interativo da família, resistência como força criativa.

Perspectiva trigeracional

Princípio da contemporaneidade

Individuação e pertencimento

Fronteiras de contato, Figura fundo, fronteiras, teoria de campo, Disfunções de contato

Família funcional

Boa forma

Ciclo Vital da Família

Processo existencial

Família com matriz de identidade e o ciclo vital da família
Processo EXISTENCIAL, Auto-regulação
Mitos familiares, lealdades
Cristalizações e interrupção no ciclo de auto-regulação

Sintoma / Resistência

Metáfora da família

Concepção Positiva

Ajustamento Criativo, Cristalização e Evolução

Método

Fenomenológico: NA RELAÇÃO COM as pessoas

Contato e awareness

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Técnicas

Uso criativo das técnicas

Uso de técnicas pré-existentes

Princípios gerais na psicoterapia de família e supervisão de terapeutas de família:

Não há critérios de certo ou errado. As verdades circulam e são referentes à experiência de cada um. Todas os posicionamentos são verdadeiros.

A família é percebida como um todo e o terapeuta pertence ao sistema.

As experiências anteriores de atendimentos por parte da equipe podem ser relevantes ou não. A sabedoria do terapeuta e/ou supervisor é empregada de formas variadas. Sua função é o de ser responsável por criar condições para desenvolver a qualidade de atendimento, mais do que dizer o que deve ser feito, embora esta seja, por vezes, a fala adequada e necessária daquele que está investido de terapeuta/supervisor. A supervisão de família deve contar com uma equipe.

Cada terapeuta é convidado a desenvolver a sua capacidade de atender àquela família assim como o supervisor de supervisionar todas as relações e funções presentes:

  1. terapeuta-família-supervisor,

  2. terapeuta -supervisor- demais membros da equipe,

  3. a família emocional do supervisor, do terapeuta e a família atendida,

  4. equipe – terapeuta – família

  5. instituição – equipe – família

  6. outras relações triangulares que aparecem

Metodologia do atendimento:

contato

Centrar-se no processo da experiência presente.

Perceber como a família se auto-regula

Como a energia está distribuída no sistema

Funções que cada membro exerce no sistema

Vinculação das dificuldades com o que está cristalizado e com o que está inacabado

Observar o potencial de saúde do casal ou da família. Indicar isto para a família.

O terapeuta participa do processo da família de forma oscilante: em alguns momentos guia, em outros é guiado e em outros fica fora do sistema, assistindo ao fluxo da experiência da família;

Facilita o contato entre as pessoas da família com intervenções nas funções de contato e nas fronteiras do self;

Utiliza o experimento em busca da Boa Forma, auxiliando o sistema a se dar conta do seu processo de homeostase. Emprego das metáforas em atendimento de casal.

O uso de técnicas de tipos variado provoca o ajustamento criativo e o aparecimento de uma auto-regulação mais adequada ao momento existencial da família. Uso do dever de casa.

Evitar que o atendimento gire apenas em torno do conteúdo.

Toda sessão precisa ser uma experiência de encontro e mobilização dos recursos da família.

Mesmo com o emprego das técnicas a relação que está implicitamente presente é estar com e não fazer para.

Para finalizar lembro como os tempos pós –modernos trouxeram mudanças nas estruturas e valores sagrados ao processo terapêutico. A noção de tempo, por exemplo. O sistema de informações em ritmo tão acelerado faz parecer que o processo de psicoterapia tem uma engrenagem muito lenta. A complexidade do mundo atual é que lidamos com muitas e diferentes narrativas. Políticas de saúde, sistemas de vida social, econômica, política e emocional muito distintos exigem um diálogo terapêutico que consiga decodificar, registrar e interagir com a complexidade da rede dos relacionamentos.

Desta forma, é preciso lembrar que a Gestalt terapia e o atendimento à família e casais de fato pode ser feito em espaço bastante limitado de tempo, porém com bastante aprofundamento.

O formato dinâmico e humanista da Gestalt-terapia a mantém compatível com todos os modelos que a humanidade criou e que continuará criando, enquanto houver água potável e vida sensível na terra.

L’immagine precaria

Scuola di Arti e Gestalt
presenta

16-17 Maggio
Sede Igf Firenze – Via del Guarlone 69

Un seminario condotto da Pierluca Santoro

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