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Contato é vívido vivido. Não é relação sujeito objeto, Nem relação de causa e efeito… Também o contato não tem utilidade


afonso da fonseca

Sobre o sentido e lugar do Contato
e de sua concepção na concepção e método

da Gestalt Terapia

Di Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

 

Laboratório Experimental de
Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial.

affons@uol.com.br
http://www.geocities.com/eksistencia/

Este ensaio visa desenvolver uma interpretação da concepção e da importância da concepção de Contato na formulação e método da Gestalt Terapia, de um ponto de vista fenomenológico existencial. Em particular, a partir da perspectiva da intencionalidade da vivência de ser no mundo.

E lá vou eu, gesto no movimento…
Paulo Leminsky

Uma preciosa contribuição de Fritz Perls, e da tradição que se prolonga na Gestalt Terapia, decorre da sua dedicação, teórica e prática, à questão do que se convencionou chamar de Contato. Do contato e do como do contato, na condição humana, na disfunção, no que metaforicamente podemos entender como “adoecer”, e na concepção e prática da psicoterapia.

Originalmente de cunho eminentemente fenomenológico, e existencial, a noção de Contato ficou algo prejudicada, não obstante, no desenvolvimento da Gestalt Terapia.

Aparentemente, pelo próprio nível, e conflitos, do desenvolvimento da Fenomenologia, e do Existencialismo, que lhe embasavam. Igualmente, em função de conflitos culturais da cultura da Humanidade, na sua época e lugares. E, em particular, pelas próprias limitações de Perls no trato com abordagens filosóficas que lhe eram tão importantes, e que de um modo decisivo contribuíam para a originalidade e fecundidade de suas práticas e teorizações. Perls era um médico. Uma outra dimensão sua era a de um artista expressionista experimental. Desta surgiu, efetivamente, a sua prática e o seu desenvolvimento da Gestalt Terapia. Mas, em se tratando de uma terapia, o modelo médico, no qual se embasa, inclusive, a prática e concepções psicanalíticas, de onde vinha Perls, teve um peso grande, a limitar o desenvolvimento do caráter e teorização especificamente fenomenológico existenciais da Gestalt Terapia de Perls.

Neste sentido, cumpre compreender as limitações de Perls. Não se tratava de um filósofo, fenomenólogo, ou mesmo de um psicólogo, mas de um médico, situado na ótica do empirismo objetivista, vigorante no modelo médico. Por mais que a Psicologia Organísmica Gestáltica de Kurt Goldstein, e outras influências fenomenológico existenciais houvessem amaciado, corroído, comprometido, e mesmo subvertido, o objetivismo deste empirismo oriundo do modelo médico.

Podemos, e precisamos, hoje em dia, creio, retornar a, e repensar, a concepção de Contato, especificamente a partir das bases da Fenomenologia e do Existencialismo. Em particular, com uma perspectiva que Perls não poderia ter em sua época. No sentido de continuarmos desdobrando a fecundidade da noção de Contato para a concepção e exercício experimental da condição humana, para a concepção de distúrbios, e para a concepção e prática de condições e recursos terapêuticos.

Para, inclusive, vermo-nos livres da omissão; ou, inversamente, vermo-nos livres da avalanche de bobagens que se fala e escreve a respeito de tão importante noção.

  1. Contato é especificamente a vivência de atualização de possibilidades, (a partir da projetatividade pré-compreensiva destas) ao nível da vivência de ser no mundo. O desdobramento do contato é a dinâmica vivencial hermenêutico dramática, fenomenológico existencial experimental, de desdobramento das possibilidades que se dão, ontologicamente, na vivência de ser no mundo

O contato dá-se e desdobra-se, especificamente, como atualização de possibilidades ao nível da vivência de ser no mundo.

A vivência de ser no mundo, o vivido, dá-se como vivência, fora, portanto, do modo de ser em que vigoram a relação sujeito-objeto.

Como desdobramento e atualização de possibilidade, por outro lado, a vivência de ser no mundo constitui-se como presentificação poiética, fora das relações de causa e efeito.

Quando, em nosso modo de ser, nos afastamos do desterritório da vivência fenomenológico existencial de ser no mundo – vivência pré-reflexiva e pré-teórica, pré-conceitual, presentativa e não re(a)presentativa — e do contato, portanto –, constituímo-nos, então, num modo de ser no qual vigora a dicotomia e relação sujeito-objeto, e as relações de causa e efeito.

Assim, o mundo e os seres do mundo podem ser objetos, e nós, sujeitos. Condição para que os objetos possam se constituir em sua utilidade, e serem efetivamente usados pragmaticamente.

Nos momentos do vivido de ser no mundo, no processo do contato, estamos num modo de vivência no qual compartilhamos com o mundo um âmbito em que se diferenciam consciência e mundo, eu e realidade objetiva, sem que se dicotomizem em sujeito e objeto, na medida em que se dão como vivência fenomenal intencional. Este âmbito é um âmbito poiético, de brotamento da realidade e atualização, a partir das possibilidades de ser no mundo, vividas fenomenalmente, no qual não vigoram as polarizações e relações sujeito-objeto, nem as relações de causa e efeito, nem as relações de utilidade.

Ao nível deste modo de ser que é a vivência de ser no mundo, constitui-se assim o possível, a possibilidade em nossa vivência. Possibilidade que se projeta em seu processo de atualização e desdobramento, constituindo o que Heidegger1 entendeu como interpretação.

Entendo o Contato como o processo de desdobramento de possibilidade como vivência de ser no mundo. O Contato é a interpretação, o Contato é hermenêutico.

De modo que Contato é, eminentemente, vivência de ser no mundo. Ou seja, desdobramento de possibilidade ao nível da vivência de ser no mundo.

Existe dialogicidade e inter ação no Contato. Mas não existe uma objetividade da vivência de contato, nem uma pragmática objetivista do processo do contato. O contato se dá propriamente pela experimentação fenomenológico existencial. Experimentação vivencial. Vivência, que se encontra, como tal, fora das relações sujeito-objeto, e das relações de causa e efeito, sendo da ordem da hermenêutica poiética.

  1. Assim, o contato se dá, e se desdobra, como vivência fenomenológico existencial intencional do ser no mundo. De modo que não há relação sujeito-objeto, nem relação de causa e efeito, ao nível da fronteira de contato, do contato, e do seu desdobramento, do ajustamento criativo e da auto regulação organísmica…
    No modo de ser em que se dão a dicotomia sujeito objeto, as relações de causa e efeito, e a utilidade, dá-se, especificamente, não o contato, mas a sua impossibilidade e impossibilitação, a interrupção do contato e de seu desdobramento.

Como observamos, um dos principais limites das formulações de Perls está numa certa ambigüidade e carência com relação ao seu fundamento fenomenológico e existencial. Herdeiro indiscutível, num certo sentido, da Fenomenologia Hermenêutica Existencial da tradição de Brentano, e das Filosofias da Vida de Nietzsche e Dilthey, Perls, aparentemente, encontrava-se tolhido nesse sentido por uma outra vertente de sua formação: a de um background médico, calcado num empirismo objetivista, diverso do empirismo especificamente fenomenológico da tradição fenomenológica e ‘existencialista’ da Fenomenologia e da Filosofia da Vida.

Ainda que em sua prática Perls fosse menos ambíguo, esta ambigüidade configurou-se nas formulações e indicações de sua concepção de Contato. No limite, esta ambigüidade vai aparecer na formulação de uma concepção de contato que é eminentemente fenomenológica e existencial2, ao mesmo tempo em que se perde na perspectiva de uma concepção objetivista e não fenomenológica de contato, como contato entre um sujeito e um objeto, ao nível da Fronteira de Contato.

O objetivismo pragmatista do meio norte americano em que a Gestalt Terapia se desenvolveu perpetuou a ambigüidade. Ou tendeu freqüentemente a resolvê-la no sentido do objetivismo pragmatista, afastando muitas vezes a Gestalt Terapia norte americana de sua originalidade fenomenológico existencial.

Em Gestalt Terapia as noções são em geral confusas quando se busca precisar a concepção de Contato ou de seu processo. A concepção se perde em geral num confusional, que não raro dá margens a interpretações que seriam cômicas, se não fossem catastróficas. Isto decorre, naturalmente, das buscas e tentativas de explicação de noções que são eminentemente fenomenológicas e existenciais sem que, para isso, se recorra às perspectivas da Fenomenologia e do Existencialismo, tentando-se, às vezes, evitá-las e contorná-las assepticamente… O resultado é o que vemos…

As limitações de Perls somaram-se a uma profunda e duradoura incompreensão, e até aversão — no âmbito da cultura norte americana, para onde foi transplantada, e onde se desenvolveu a Gestalt Terapia – do e pelo caráter fenomenológico e existencial experimental do seu empirismo original. Este confundido, de um modo geral, de modos mais ou menos ingênuos, com a perspectiva de uma experimentação e de um empirismo objetivistas.

Fenomenológicos e existenciais, como observamos, o Contato e o processo de seu desdobramento não se dão, ao nível da dicotomização sujeito-objeto. A sua materialidade objetiva, ou subjetiva, é derivada. Da mesma forma que não se dão no âmbito do modo de ser das relações de causa e efeito. O contato e o seu desdobramento se dão fenomenológico e existencialmente, ao nível de vivência de ser no mundo, que é eminentemente intencional. De diferente dimensão, portanto, da ordem da dicotomização sujeito-objeto.

O aparecimento e a vigência do sujeito, e do objeto, e de sua dicotomização; a possibilitação das relações de utilidade, e de causa e efeito, representam especifica e propriamente um afastamento do modo de ser do contato, um afastamento do modo de ser da vivência de ser no mundo, e do processo de seu desdobramento como desdobramento de suas possibilidades.

Ou seja, o modo de consciência, reflexivo, ou comportamental, que permite a diferenciação sujeito-objeto, e as relações de causa e efeito, é uma dimensão, exatamente, da impossibilidade ou da impossibilitação do contato, e do seu desdobramento. Ainda que seja, também, evidentemente, uma dimensão natural do ritmo do ser da existência.

  1. Igualmente, a Fronteira de Contato não se dá como relação sujeito-objeto. A Fronteira de Contato é a tensão vivencial da projetação da possibilidade: projatação do pré ser compreensivo da possibilidade.

Impressionado, talvez, pelos desenvolvimentos iniciais da Citologia, a concepção de Perls de Fronteira de Contato parece ter tomado como paradigma básico o modelo de concepção da membrana celular. A membrana celular que se constitui a partir da influência dos meios extra e intracelular, como organização de elementos que pertencem a ambos os meios.

A questão da fronteira de contato, não obstante, não é e não cabe em sua especificidade nesse paradigma citológico, biológico e objetivista. A fronteira de contato é, evidente e especificamente, fenomenológica e existencial, e não biológica. Oriunda, certamente, na problematização de Brentano relativa à questão das fronteiras entre as partes e o todo; e nas questões relativas ao possível e a sua atualização. Evidentemente que somos o que entendemos como seres biológicos e fisiológicos. Mas fenomenológico e existencialmente vivenciais e vividos como ser no mundo.

A Fronteira de Contato, que se dá no âmbito próprio da intencionalidade da vivência de ser no mundo, não é exatamente, nem de modo algum, a fronteira entre um sujeito e um mundo, entre sujeito e objetos, por mais sutil que fosse a conexão e integração. A fronteira de contato, o contato, e o seu desdobramento, como se dão ao nível da intencionalidade de ser no mundo, não são da ordem da interação entre um sujeito e um objeto.

Fenomenológica e existencial, a Fronteira de Contato é, assim, a tensão entre o ser no mundo e o seu possível. Por um lado, a pressão (do mundo e do sujeito constituídos, decaídos), e a ex-pressão da força da possibilidade, no desdobramento do ser no mundo, poiesis (ou seja, ‘ger ação’ e ‘re gene r ação’) do ser no mundo. E, na verdade, derivadamente, poiesis do mundo e do sujeito constituídos, da realidade. Experimentados enquanto tais, em si, de modo diverso do modo da vivência de ser no mundo, do contato, e do processo de seu desdobramento.

Num sentido mais próprio, então, a Fronteira de Contato dá-se, assim, não como uma articulação sujeito-objeto, mas como vivência de tensão dialógica entre, (no âmbito entre, inter, inter pré ação, inter ação), entre, a vivência de ser no mundo e a atualização da(s) possibilidade(s) de ser, atualização de um pré-ser, que lhe é inerente. Tensão, no âmbito vivencial, entre a possibilidade e o seu desdobramento, entre a possibilidade e a sua interpretação.

Assim, o processo do contato, e do seu desdobramento (interpretação), configura-se eminentemente como um processo fenomenológico existencial — dialógico, hermenêutico e poiético — de tornar-se o que se é enquanto possibilidade, ao nível da vivência de ser no mundo. A ato-aliz-ação de um pré-ser-se no mundo, imediatamente dado como possibilidade na vivência de ser no mundo, um processo de engendramento e de atualização de possibilidades de ser a cada momento ontologicamente inerentes, enquanto tais, ao ser no mundo. A Fronteira de contato é a tensão da possibilidade de ser, em seu movimento de ato ação.

  1. Contato (ser no mundo, possibilidades e pré-ser-se) e o seu desdobramento (interpretação fenomenológico existencial experimental), hermenêutica experimental, (situação hermenêutica, experimentação fenomenológico existencial).

Como Perls3 indicou, o contato é a realidade mais básica, que nos é dada como a própria vivência da condição de ser no mundo, entranhada, inerente e ontologicamente, de possibilidades de ser.

Fenomenológico existencialmente, enquanto vivência, não seria o contato, a vivência de ser no mundo, subjetivos, e carentes de mundo?

Precisamente, não! Porque se dão, especifica e propriamente (como nosso modo de ser mais básico), no âmbito dialógico da intencionalidade no qual sujeito e mundo correlacionam-se co-originalmente, anteriormente a qualquer possibilidade de separação. No vivido, na vivência de ser no mundo, no contato, nós mesmos e o mundo estamos inevitavelmente presentes, e co-originalmente articulados.

Isto significa que nos momentos de vivência deste modo de ser, não se dá a dicotomia sujeito/mundo (objeto).

A possibilidade, o pré-ser-se do ser no mundo, a ato ação, atoalização, são, assim, precisamente, possibilidade e pré-ser-se do ser no mundo. Envolvem o que seriam (e que são, enquanto afastamento) o sujeito e o mundo/objeto, enquanto tais. Mas não são possibilidades respectivas do sujeito em si, e/ou do mundo/objeto em si, ou de uma interação de suas instâncias respectivamente ensimesmadas.

Quando mudamos, na atualização, desdobramento, da possibilidade de ser, na atualização do pré-ser-se do contato, e de seu desdobramento, somos ser no mundo, em vivência de emergência de ato ação, em mudança, em desdobramento de possibilidade. Vivência de ato ação de emergência momentânea, rítmica, cíclica, regular, enquanto tal. De diferente dimensão, e que não comporta a dicotomia sujeito/objeto (mundo).

Quando aparecemos sujeito, quando o mundo/objeto aparece em si, como tal, já não estamos mais, no momento, momentum, rítmico, cíclico, regular em sua constituição, do processo do contato na vivência de ser no mundo, e de seu desdobramento.

O contato envolve, assim, um mergulho na vivência do pré ser do possível propulsivo, imediata e compreensivamente presente e emergente na vivência de ser no mundo. Mergulho a que chamamos de ex peri ment ação. E um desdobramento ativamente vivencial de suas forças de possibilitação, a que chamamos de interpretação. De modo que, realizando assim o hermenêutico da nossa condição humana, criamos a nós mesmos, as nossas condições, e ao mundo que nos diz respeito, numa hermenêutica experimental, poiética.

A Gestalt Terapia propõe-se a ativar esta dimensão da condição humana, como logos metódico de potencialização de nossa criatividade existencial.

  1. O contato, o seu desdobramento, e a integridade e integração corpo/mente, self/mundo externo. Atualização. Espontaneidade. Ajustamento criativo. Auto regulação. Crescimento.

Da mesma forma, ao nível próprio da intencionalidade da vivência fenomenal de ser no mundo, de suas possibilidades e desdobramentos, o contato e o seu processo de desdobramento não se dão ao nível de uma dicotomização corpo/mente. E igualmente não se dão ao nível da dicotomização self/mundo externo4. Ou seja, ao nível próprio da vivência de ser no mundo, de suas possibilidades, possibilitações e desdobramentos (interpretações); ao nível do contato e do desdobramento de seu processo, dão-se uma integridade, uma integração gestáltica e organísmica, e fruição de corpo-mente, self-mundo externo. Ou seja, não vigora nesta dimensão uma dicotomia corpo-mente e self-mundo externo…

À medida que se desdobra o processo do contato, as dicotomias corpo/mente, self/mundo externo tendem a reduzir-se e a dissiparem-se, na absorção própria e especificamente dialógica (pré-reflexiva, presentativa, antes que re apresentativa), da vivência fenomenal (intencional) de ser no mundo, da ‘ato ação’ espontânea, na qual naturalmente integram-se e dialogicamente dançam self-e-mundo externo, corpo-e-mente. .

Pense numa dança, a dois, ou não, interpretada com entusiasmo…

A momentaneidade da vivência da interpretação, do dançar, ou seja: a momentaneidade da interpretação, hermenêutica, desdobramento, poiese, de suas possibilidades — enquanto desdobramento de processo de contato — constitui-se, própria e especificamente, como a momentaneidade de uma redução da dicotomização corpo/mente, e absorção vivencial do vivente dançante (de cada um dos parceiros). Momentaneidade de uma redução da dicotomia entre os dois parceiros como entes isolados em si. E redução da dicotomização entre ele(s) — e o ambiente, e o chão, e os sons da música, e a gravitação… — que coalescem na dialógica tensional das diferenciações em ato, na interpretação, hermenêutica, do desdobramento das possibilidades do contato enquanto ritmos dançantes.

E, de passagem, enfatizando o valor da afirmação da intensificação da interpretação da força do possível, perecível, diria Nietzsche, na fala de Zaratustra:

O passo de cada um revela se ele se encontra já no seu próprio caminho. Vede-me, portanto, caminhar! Mas aquele que se aproxima do seu fim… esse dança.

E, na verdade, não me transformei em estátua, ainda não estou entorpecido, pesado, petrificado, colocado como se fosse uma coluna; gosto da corrida veloz.

E, ainda que na terra haja pântanos e uma profunda tristeza, aquele que tem os pés leves corre por cima da lama e dança como sobre gelo polido.

Corações ao alto, meus irmãos, ao alto, ainda mais alto! E não esqueçais as pernas! Levantai as pernas, bons dançarinos, e, melhor, ainda: sabei aguentar-vos sobre a cabeça!

(…)

Mais vale ainda ser louco de felicidade do que louco de infelicidade, mais vale dançar pesadamente do que arrastar a perna. Aprendei, portanto, comigo, a minha sabedoria: mesmo a pior das coisas tem dois lados bons.

Mesmo a pior das coisas tem boas pernas para dançar: aprendei, portanto, vós próprios, homens superiores, a manter-vos direitos sobre as vossas pernas!

Esquecei, portanto, a melancolia e toda a tristeza da gentalha!

(op. cit., pp. 294-5)

“E que por nós seja considerado perdido o dia em que não dançamos! E que por nós seja considerada falsa a verdade que não é acompanhada por uma risada!”

(op. cit. p.209)

A vivência do contato e do seu desdobramento implica sempre neste aleviamento na redução da dicotomização, e desenvolvimento de uma integração momentânea e diferencialmente tensa, entre corpo/mente, self/mundo externo. Vivência que é poiética, hermenêutica, regeneradora, e potencialmente alegre, por sua promoção de uma super abundância de forças…

Momentânea a integração — ainda que de rítmica e de vital presença em nossa existência –, as dicotomizações corpo/mente, self/mundo externo; e/ou o desenvolvimento momentâneo, circunstancial, de uma integração difícil, de uma disintegração, são próprios de nossa cotidianidade, na medida em que o modo de ser no mundo da vivência é momentâneo e circunstancial. Vivência de intensidades e de intensificações, de mudanças e transformações, na medida em que atualiza possibilidades, a vivência de ser no mundo, a vivência do contato não poderia perdurar como modo de ser. De modo que a nossa cotidianidade se configura em sua normalidade como modo de ser dela diverso. Distanciadamente da vivência de ser no mundo, distanciamento, descanso, num certo sentido, do processamento do contato e do seu desdobramento.

Os momentos desta vivência integrada corpo/mente, self/mundo externo, na interpretação, no desdobramento das possibilidades de ser do ser no mundo, no desdobramento do contato, permite uma otimização da criatividade, que pode, existencialmente dar-se então como ajustamento criativo, e como auto regulação organísmica, redundantes no que Perls5 veio a chamar de crescimento.

  1. Momentaneidade do afastamento do contato, dificuldades no desdobramento do contato, desintegração corpo/mente, self/mundo externo, funcionamento mental, mente (consciência reflexiva), deliberatividade (arbitrariedade).

Assim, por dentro de uma cotidianidade não fenomenológica, não contactante, somos latentemente ser no mundo, contato, como nossa realidade (realiz ação, atu ação) ontológica mais básica. Latência esta impregnada de possibilidades de ser, sempre dispostas à atualização, e fazendo-o, efetivamente, nas oportunidades de nosso modo atoativo de ser.

Mas as possibilidades, em seu pré-ser-se e desdobramentos atoalizantes, têm os seus ritmos e processamentos próprios. Seus critérios, dificuldades, potencializações, facilitações, oportunidades.

Emergem, configuram-se, constituem-se, adensam-se, pro-põem-se orgânica e paulatinamente, em sua vontade, força, projetativa, em particular a partir dos movimentos de nossa ação. Até os momentos em que estão maduras, prestes a reivindicar a sua ato ação, a sua atualização, a sua interpretação, a sua contact-ação.

De modo que, ainda que existamos em contato, vivenciado, própria e especificamente, ao nível do nosso modo de ser de nossa vivência de ser no mundo, como nossa condição ontológica mais básica, o desdobramento do contato, da atualização das possibilidades de ser, são cíclicos, paroxísticos, e momentâneos, em seus momenta de manifestação, a partir da latência crescente de suas possibilitações.

No distanciamento, na insensibilidade e dessensibilização para o nível da vivência de ser no mundo, estamos distanciados desses momenta da possibilitação, e da movimentação da atualização do contato/possibilidades de ser.

Este afastamento da vivência de ser-no-mundo/contato e de seu desdobramento, significa uma abstração deles, estão suspensos, ‘inter ditos’, na verdade ‘inter des ditos’, ou até ‘inter dis ditos’.

Na medida em que a sua concretude vivida é da ordem da vivência fenomenal pré-reflexiva, ‘present ativa’, imediata, intuitiva, ‘atu ativa’, a sua abstração significa a abstração desta vivência. E, em conseqüência, o desenvolvimento da ‘re flexão’, da consciência re flexiva, re(a)presentativa, o desenvolvimento, como tal, da mente e do mental. Ou o desenvolvimento do comportamento e do comportamental, domínio de ser do habitual e do mecânico, do ‘re petitivo,com a consciência dessensibilizada e diferente do modo de ser do domínio fenomenológico eksistencial das possibilidades de ser e das possibilitações do vivido.

Abstração, este modo de ser, o que é abstraído, suspenso, é a concretude, a concrescência, do vivido do ser no mundo, integridade e integração (que é mais do que a soma das suas partes) do que, na re(a)presentação da consciência reflexiva, teórica, conceitual, explicativa, aparece como dicotomia mente-corpo, self-mundo externo, sujeito-mundo(objeto). O que é abstraído é a vivência de ser no mundo, somente na qual o possível é possível, e se desdobra.

Afastando-nos do modo de ser da vivência de ser no mundo, podemos, assim, evitar o desdobramento do contato, como evitação do desdobramento das possibilidades de ser que lhe são inerentes, na intencionalidade da vivência de ser no mundo.

Mas não podemos evitar sermos contato, como nossa condição mais básica, latente e sempre acessível no modo de ser da vivência. Podemos nos afastar desse modo vivido de sermos, e do seu desdobramento. Mas não podemos optar pela não existência de nosso modo vivido de ser no mundo. Podemos evitar o desdobramento do contato, mas não podemos evitar o contato enquanto possibilidade, força de vir a ser.

Podemos, assim, afastarmo-nos de nosso modo de ser da vivência de ser no mundo – basta dedicarmo-nos à reflexão e ao comportamento, mecânico e repetitivo, sem o engendramento do novo, à objetivização. Afastarmo-nos assim do contato, e da possibilidade do desdobramento de suas possibilidades. Mas não podemos abstermo-nos de sermos contato, como dimensão ontológica de nossa condição existencial mais básica. Podemos evitar o desdobramento das possibilidades de ser inerentes ao ser no mundo: podemos nos recusar ao, ou evitar o desdobramento do contato, como recusa e evitação do desdobramento das possibilidades de ser inerentes ao ser no mundo. Mas não podemos evitar sermos contato, na intencionalidade da dimensão mais básica de nossa existência como ser no mundo. Não temos, ontologicamente, a opção de evitar o contato, e enclausurarmo-nos na mônada subjetiva.

Regularmente, o ritmo da existência dá-se, quantitativamente no modo de afastamento do contato. Qualitativamente a emergência dos momentos fenomenais criam e recriam, pela atualização de possibilidades, o ser de nossa existência.

O afastamento naturalmente reversível do modo fenomenológico existencial do vivido de ser no mundo, o afastamento do contato, este afastamento da dramática da interpretação das possibilidades vividas de ser no mundo/contato, é momento natural e saudável de retração e de repouso, momento natural também do ritmo do processo de adensamento e de potencialização das possibilidades de ser/contato.

Nesse modo de ser do afastamento, em particular, pode se constituir a reflexão e o comportamento. O provimento de dimensões de nossa vida que requerem o modo reflexivo ou o modo comportamental de funcionamento

Naturalmente reversível na saúde, o prolongamento deste afastamento inevitavelmente implica, todavia, na fragmentação partitiva progressiva do vivido, fragmentação do modo de ser da vivência, da integridade e da integração da totalidade ‘totalizativa’ da vivência de ser no mundo (que é mais do que a soma de suas partes). Implica na fragmentação do vivido da integridade e da integração corpo-mente, self-mundo externo.

Susta-se, na tendência ao afastamento do modo de ser vivencial do contato e de seu desdobramento, a integração e a integridade vividas no contato.

A reversibilidade, não obstante, aos momenta da vivência de ser no mundo é natural, e faz parte de nossa saúde, e capacidade para a auto regulação e para o ajustamento criativo, no chamado campo organismo-meio. Não se atualizando, todavia, esta reversibilidade, o corpo e a mente, o self e o mundo externo, o sujeito e o mundo (objeto), progridem em sua fragmentação e disintegração da integração e da integridade da vivência do contato no ser no mundo.

O afastamento da dramática da vivência do contato, da interpretação, desdobramento, das possibilidades vividas de ser no mundo, é, assim, momento natural do ritmo desdobramento/retraimento/condensação do processo do contato. Eventualmente potencializa o momentum da interpretação e do desdobramento. Ou atua seletivamente, evitando a atualização/desdobramento de possibilidades/contato insignificantes, desinteressantes, inconvenientes, dolorosas, perigosas…

Às vezes mesmo, a possibilidade tem efetivamente força de possibilidade, mas vem de bunda… Ou é feia, ou é doída, doída, sofrida… Às vezes insuportavelmente… Às vezes ela assusta e amedronta… nas implicações do ser outro que ela traz, na atualização de finitudes e sofrimentos (ainda indizíveis) que contém e implica, na força da novidade que carreia… Ou seja, a atualização e desdobramento da possibilidade pode exigir tempo de elaboração…

A bem da verdade, não existe possibilidade atualizada que não atualize ou possibilite, também, a ato ação, a atu alização de um término, de um final, de uma finitude, de uma “morte”, ou mesmo uma Morte mesmo…

No final, existe sempre a possibilidade da força, da alegria. Mas, no meio, às vezes, é como “cagar um osso atravessado…” Ou, talvez pior, abrir a porta, dar força, “dar luz a cego”, para um sofrimento indizível, intolerável… indesejado, para uma morte não querida, resistida, amaldiçoada, para a qual não se está ainda pronto.

A evitação significa um afastamento da concretude da vivência, e da atu ação de ser no mundo. Significa a abstração desta vivência, pelo privilegiamento da consciência reflexiva, teórica, conceitual, onde nos refugiamos da ameaça do desdobramento da possibilidade, do contato, de que estamos já grávidos e incumbidos, incubados. A evitação é abstração da vivência de ser no mundo, do contato e seu desdobramento, pelo privilegiamento da dessensibilização da fronteira do possível, e pela opção pelo reflexivo, deliberado, arbitrário, habitual, mecânico, ao mesmo tempo em que o corpo retrai-se e fragmenta-se do mundo que lhe é indissociável…

A Evitação eventual do Contato, do desdobramento, a evitação da atualização, das possibilidades de ser, pelo afastamento do modo de ser da vivência da ato ação das possibilidades de ser do ser no mundo, não são, assim, sem sentido, ou inorgânicas… Fazem parte natural da saúde da gente… Permite-nos o repouso, ou evita o desdobramento do contato, a atualização prematura ou mesmo indesejada, ou indesejável, de possibilidades de ser… Ou susta o processo assustado do desdobramento de uma possibilidade de ser, para potencializá-lo. Ou dá um tempo, por uma questão de timing…

É preciso dar um tempo, e a evitação eventual sai do ‘tempo’, e serve a esta função, através do afastamento da vivência fenomenal, pré-reflexiva, da atualização e desdobramento da possibilidade de ser do contato no ser no mundo: o mero sustenido do contato, e do seu desdobramento, potencializa este desdobramento, e configura-se como arte do contacto, e da atualização do possível… Dá-se pela saída, retirada (às vezes até como fuga, saudável), do seu desterritório: especificamente o ser no mundo de sua vivência, e da ato ação das possibilidades de seu pré-ser-se. Pela abstração deles.

Na abstração da vivência do ser no mundo, e do inerente processo de ato ação das possibilidades de seu pré-ser-se, na abstração da integração e da integridade corpo/mente, self/mundo externo, encontramo-nos no abstrato, abstraído, deles. Ou seja, no sem-corpo, sem-vivido, sem-sentidos, sem-ação, sem-possibilitação, sem-ato ação, atualidade sem-atualização. (E há quem ainda queira, sobre tudo, a Ciência e a Técnica…).

Estamos no reflexivo, na reflexão, na teorização, na conceituação, na ekstase, stase, estagn ação da eksistencia. Ou no cotidiano do mecanicismo do comportamento, habitual, mecânico, padronizado e previsível, sem ato ação, sem atu aliz ação, sem ação. Que, como momento rítmico da existência, como momento processual… faz parte…

Como momento do ritmo da existência, é aí que vivemos a nossa cotidianidade normalizada, de que, também carecemos (mas sem exagero, né?). Ou é aí que nos refugiamos, que nos retraímos, e repousamos, do contato e de seu desdobramento. Que nos refugiamos e repousamos do assédio das possibilidades, que delas nos protegemos, que a elas regulamos, enquanto sujeitos, sujeitados (às vezes deliciosamente…), que delas protegemos o nosso mundo. Imaginemos, por exemplo, que temos a todo tempo a possibilidade de morrer… e a ela evitamos, e dela nos protegemos com os outros, e dela protegemos o nosso mundo com os outros…

Momentaneamente, assim, a interrupção pode atuar como sustação do contato, como sustação da atualização da possibilidade de ser, por uma questão de seleção, ou de momento oportuno, para, em seguida, enfatizá-la e efetivá-la, desdobrá-la, atualizá-la.

Sustém-se o contato — às vezes, assim, no mero e saudável susto do que ele implica –, saindo-se do âmbito do seu desterritório. Ou seja: saindo-se do âmbito próprio da vivência do ser no mundo, e da desdobração do pré-ser-se, possibilidade de ser, que lhe são inerentes. Eventualmente como recurso de potencialização desta desdobração, ou como pressentida inabilidade de lidar com o que ele implica, e dando-se tempo para a habilitação, no melhor dos casos; uma vez que o pré-ser-se é sempre já e inevitavelmente uma incumbência, um incumbido, um íncubo, uma prenhez. Que se pode, até a ferro e fogo, interromper, mas que não se pode extirpar, e que permanece, inclusive, na impregnação de sua interrupção, ou nos diversos níveis de sua ininterrupção, como pré-ser-se, pronto, como tal, a re-tornar e a rebentar…

Como tal, quando é o caso, pois, a interrupção do contato não evita o sofrimento da finitude, incubados, incumbidos, visceralmente já, em um pré-ser-se que já se é, como tal, naquilo que nos existe de mais inamovível.

Trata-se, nesse caso, do dilema que Nietzsche aponta — e que diante dele não vacila: entre sofrer de superabundância de forças de vida, ou de sofrer de uma falta de forças de vida:

Eu abençôo todo sofrimento, dizia Zaratustra, acerca do sofrimento inevitável

A vida merece ser plenamente afirmada, mesmo quando ela é sofrimento, mesmo quando ela é finitude… E é esta afirmação própria da finitude, e do sofrimento que lhe são inerentes, como afirmação irrestrita da vida, mesmo no que ela tem de mais problemático, que potencializa o retorno da vontade, força, da possibilidade de ser, como vontade, força, da vida, atu ação do possível.

Na saúde, grande saúde, o desdobramento do contato/possibilidades de ser dominantes ao nível do ser no mundo, atualiza-se, mesmo após os momentos, estratégicos certamente, de afastamento. Assim, o contato e o seu desdobramento desdobram cíclica e periodicamente, ritmicamente, a possibilidade da vivência de ser no mundo que constantemente entranha-se, como um pré-ser, naquilo que somos. Alternativamente à mesmidade da cotidianidade de um sujeito e de um mundo, de uma mente e de um corpo constituídos, dicotomizados, e efetivamente passados, sempre em risco de aí encistarem-se.

Na saúde, a grande saúde, enfrentamos e afrontamos, heróica e naturalmente, inclusive, e em particular, o sofrimento e a finitude que nos estão incumbidos, incubados, na ato ação da possibilidade de ser. Desdobramos o contato como atualização, afirmação, de possibilidades de ser, dimensões inalienáveis de uma vida inalienável. Somos atores de um ser outro da possibilidade de ser, intérpretes da outridade de um possível ao qual podemos nos recusar, mas do qual já estamos grávidos.

E isto garante a força da vontade de outras possibilidades de contato e de desdobramento, a novidade, a força e o fluxo da existência, da criatividade, da auto-regulação e do ajustamento criativo.

Ritmo, é uma dimensão múltipla e crucial, crucialíssima, em termos de contato e de seu desdobramento. Na verdade, ritmo, precisão, sutileza, movimento pela linha de menor resistência…

… e lá vou eu, gesto no movimento…” (Leminski).

O ritmo do desdobramento do contato e do retraimento. O tempo do adensamento das possibilidades e da sua madurez, os múltiplos ritmos da contactação, e do retraimento. E as múltiplas desrritmias, e disrritmias, do processo do desdobramento do contato e do retraimento… Todos eles fazem parte do processo do contato, e das dificultações e facilitações que este processo pode assim naturalmente implicar.

De modo que se afastar do contato, e do mergulho na efetiva ação de sua desdobração, faz parte, naturalmente, do movimento, do ritmo, do processo do contato. Assim como a sustentação sustenida, ótima, do silêncio imbrica-se com o som, e é natural elemento da música. Ou como na paquera a palavra (ação) inter dita, e intervivida, é sustenida, exatamente na curtição da alegria da exclusividade, e exclusivação, da movimentação e do inter jogo, do inter dito.

  1. Como atualização de possibilidade, ao nível da vivência de ser no mundo, o processamento do contato e do seu desdobramento pode ser habitualmente sustados, ou interrompidos, como estilo existencial.. Naturalmente, e ao ritmo organísmico da atualização das possibilitações, ou habitual e repressivamente.

Diferentemente da sustação rítmica e natural, diferentemente da interrupção, e mesmo abortamento, ou não escolha de possibilidades inoportunas, indesejáveis e/ou indiferentes, o contato, o processo do contato, pode ser interrompido regular e sistematicamente, por um estilo existencial habitual. Determinando um padrão pobre de atualização de possibilidades, e de criatividade, em particular num sentido existencial. Tendo como conseqüência uma baixa capacidade de ajustamento criativo, e de auto regulação organísmica. O desequilíbrio psicológico, configurando o que, não sem algum anacronismo, se chamava de neurose.

Como vimos, o processo do contato pode ser sustado e interrompido natural, com ampla reversibilidade, e saudavelmente. Não é o que ocorre na modalidade que ora tratamos de um estilo existencial de interrupção habitual do processo do contato e de seus desdobramentos.

Por medo, de um modo mais geral; por educação, melhor diríamos deseducação, por falta de repertório, por dificuldade de lidar com o novo, e com os sofrimentos que as finitudes que ele determina podem gerar, pode desenvolver-se um estilo existencial restritivo, ou mesmo avesso à atualização da força das possibilidades. Possibilidade que continuam a dar-se, inevitavelmente, como vivência pré-compreensiva, ao nível do ser no mundo. De modo que a atualização de possibilidades, o contato, meramente insinuados, são interrompidos ao nível da possibilidade da sua experimentação e interpretação, de um modo regular e habitual.

Inter-des-ditos’ — habitualmente, forçosamente, re-pressivamente , cronicamente, todavia (des-viados, na verdade…) — a possibilidade, o contato e os seus desdobramentos, rompidos, interrompidos, emperrados, empedernidos, vão se tornando cada vez mais mal-ditos. Cada vez mais ek-stagn-ados, como uma gangrenação do pré-ser-se, como uma gangrengrenagem da possibilidade de ser: de novos ser no mundo, de novos mundos, e possibilidades de ser, de novos sujeitos, de novos eus, de novos outros…

E causando estragos. Ao ser no mundo, ao sujeito, ao objeto, ao mundo, à consciência, ao corpo, ao self

Em primeiro lugar, num mundo progressivamente estagnante, decaente, e difícil, a criatividade existencial, a capacidades para o ajustamento criativo, minguam proporcionalmente.

Investida na sustação, na ruptura e na interrupção de seus desdobramentos, a vontade, o querer, a força, da possibilidade de ser, inerentes ao ser no mundo, investem-se na dis-integração da possibilidade da integração e da integridade do corpo/mente, self/mundo externo, próprios à dimensão da vivência de ser no mundo. Investem-se na desorganicidade, ou na disorganicidade, na desorganização (de um corpo vivido erótica e criativamente); da consciência flexível e reversível à dimensão da ex-peri-ência ex-peri-mental da vivência de ser no mundo – não inteiramente consciente, mas poiética, geradora e regeneradora. Investem-se na hostilidade ao corpo, ao self e ao mundo, investem-se no ressentimento, na culpa, na difamação do vivido e do mundo.

E tendem a diferenciar-se e a progredir paulatinamente as partes partizadas, dissociadas, dicotomizadas; e, no limite, alienadas.

A mente, ou seja, a consciência reflexiva, teórica, conceitual, cada vez mais, abstrata e abstraída, reflexiva, teórica, conceitual. A ponto de poder constituir-se como veneno — um perigo a sua supervalorização, como diria Nietzsche… A consciência reflexiva, a mente, o mental, abstraídos da integridade e da integração da vivência de ser no mundo, distanciam-se, desintegram-se e disintegram-se do corpo, e do mundo.

O corpo que é vivido cada vez menos como vivido, e cada vez mais como objeto; ou como subjetivo, cada vez mais abstrato, cada vez mais abstraído da vivência e da vitalidade de sua espontaneidade de ser no mundo.

A mente, o mental, e o corpo, idealizado e/ou objetificado, des integram-se e dis integram-se do corpo vivido como tal na espontaneidade da vivência de ser no mundo.

O corpo torna-se cada vez mais objetivo, e objeto, não raro alienígena e alienado, nos momentos de maior afastamento. Cada vez mais sofrido e sofrente, na medida em que se extingue o seu exercício, eminentemente ativo em sua natureza fundamental. O corpo perde, progressivamente, a sua característica de totalidade ativa, ‘atu ativa’ e ‘totalizativa’, diferente da soma de suas partes, e se fragmenta partitiva e desengonçadamente. Corpo que perde o espírito da espontaneidade e da graça da movimentação de sua vivência de ser no mundo, cada vez mais ‘des animado’, mecânico, cada vez mais enrijecido, deserotizado, incômodo, culpado, doloroso, psicossomaticamente perturbado e sofrente.

Por outro lado, cinde-se e partiza-se a dialógica da integração intencionalmente vivida entre consciência e mundo.

À medida que a consciência retrai-se do mundo, num subjetivismo cada vez mais enclausurado, o mundo, na direção oposta, progride em sua objetivização, afastando e inviabilizando cada vez mais o intercurso erótico e poiético, criativo, do mim mesmo-mundo, no qual, certamente, o homem é a imagem e semelhança de Deus.

Conseqüentemente, a plasticidade do mundo, a possibilidade de sua plasmação, no âmbito poiético da dialógica eu mesmo-mundo do modo da vivência da vivência de ser no mundo, desaparece paulatina e concomitantemente. À medida que o mundo afasta-se da dialógica, e vai, cada vez mais, sendo vivido como mundo objeto, mundo objetivo, cada vez mais alienado e alienígena, cada vez mais impossibilitado e impossível.

Evidentemente que isto se dá em termos do mundo e dos seus seres, e em termos das pessoas do mundo.

Nesta tendência, o mundo, seus seres e situações, já não são mais vulneráveis à poiesis da criação. Constituindo-se o sujeito como vítima, ou como destrutivo algoz, de um mundo, e dos seres de um mundo, alienígenas e alienados.

  1. Padrão da habitualidade da evitação do contato, hipertrofia da mente e do mental, da deliberatividade e da arbitrariedade da consciência. Hipertrofia do habitual, hipertonia da deliberatividade e da muscularidade, tensão muscular, estereotipia, distúrbios na fronteira, distúrbio psicossomático. Impossibilitação do contato e da atu-ação da possibilidade de ser.

A questão problemática, pois, para a Gestalt Terapia, é quando o afastamento da vivência de ser no mundo, e das possibilidades e possibilitações que lhe são inerentes, o afastamento da vivência do pré-ser-se que se é, e de suas possibilitações, o afastamento do contato, deixam de ser reversíveis. Perdem a sua natural reversibilidade.

Com o desenvolvimento da tendência ao predomínio, progressivamente excludente, da mente e do mental, ao predomínio da consciência reflexiva, teórica, conceitual, abstrata, sobre a vivência. A perda da sensibilidade vivencial para a situ ação e para a ato ação de ser no mundo. O predomínio do comportamento, do habitual mecanizado, dessensibilizado e dessensibilizante da fronteira da possibilitação do ser no mundo; o corpo tenso e mecanizado. A desintegração e a disintegração corpo/mente, self/mundo externo, configurando-se como padrão habitual e modo de ser. Com a redução proporcional da capacidade para a criatividade existencial, para o ajustamento criativo, para a auto regulação organísmica e para o crescimento. E com a crescente hostilidade e violência contra o si mesmo, contra o corpo, contra o mundo e seus seres.

O problema para a Gestalt Terapia é, pois, o do congelamento do susto e da assustação da possibilidade, entranhada no contato. Pelo afastamento da vivência do desterritório que lhe é próprio: ou seja, o afastamento da vivência integrada de ser no mundo, de suas possibilidades e atualizações, de suas possibilitações…

Para a Gestalt Terapia, a questão problemática é quando a sustação da ato ação da possibilidade do contato perde regularmente a sua momentaneidade e potencialização de movimento de contactação. Quando a sua momentaneidade, o seu momentum, forçam-se e tendem para “baixo”, para o zero, para o nada, nihilnihilização… nihilismo… Conduzindo à des-animação da vivência de ser no mundo, à des-animação do corpo vivido, de sua “mágica” inter-ação poiética com o mundo, conduzindo à prejudicação de seus processos organísmicos de auto regulação, e das possibilitações do seu ajustamento criativo, no emergido campo-organismo meio, oriundo, criado e recriado pelas possibilitações das ato ações das possibilidades da vivência de ser no mundo.

A consciência reflexiva determina-se pela deliberatividade, na verdade pela arbitrariedade deliberativa, em oposição à espontaneidade dialógica organísmica da vivência ‘ato ativa’ de ser no mundo. Na interrupção do contato a consciência reflexiva tende a distanciar-se, como sujeito, de um mundo que se objetiva cada vez mais, e do qual ela se ‘des integra’, e ‘dis integra’, distanciando-se cada vez mais, integrando-se de um modo cada vez mais problemático, cada vez menos orgânico, caso não possa reverter-se à vivência de ser no mundo.

Na dinâmica do contato/retraimento/adensamento da possibilitação do contato, este momento de reversão à vivência de ser no mundo é natural, e potencializa o contato e a atualização de possibilidades de ser.

Comprometida e prejudicada a reversibilidade e a dinâmica do ritmo entre o contato e o retraimento, o mundo objetifica-se progressivamente, na fragmentação, e afasta-se cada vez mais, tornando-se cada vez mais impossível, impossibilitado, alienígena, e progressivamente ameaçado e ameaçador, na medida em que vai sendo cada vez mais construído como tal.

Na irreversibilidade, o próprio corpo, distanciado do que originalmente é uma integração, desanimado de sua vivência enquanto integridade de vivência de ser no mundo, vê crescer o abismo e a desconexão entre ele e o mundo objetificado, mundo progressivamente em despossibilitação. Enquanto ele, originalmente ativo e criativo na integridade e na integração da vivência de ser no mundo, potente e dinâmico, progressivamente, igualmente, se despossibilita…

A experiência ‘da consciência’ perde-se da momentaneidade da integridade e da integr ação do ser no mundo, da vivência integrada corpo/mente, self/mundo externo, que lhe é própria, e é própria à momentaneidade do contato e do seu desdobramento, e não se oferece mais ao fluxo da espontaneidade dialógica do ser no mundo, e torna-se cada vez mais deliberada e arbitrária, tendencialmente compulsiva e histérica, cada vez menos espontânea, dialógica e vital.

Neste movimento, tendem, assim, a ser progressivamente dominantes, unilaterais, e irreversíveis, a consciência reflexiva, teórica, conceitual, com a sua deliberatividade e arbitrariedade compulsivas, teóricas e abstratas; o corpo voluntário e subjetivo (subjetado?), meramente voluntarioso e não espontâneo, e o mundo alienígena. O comportamento torna-se hegemônico, enquanto extinguem-se as possibilidades da ação, que atualiza possibilidades. No empobrecimento da movimentação do self que os integra na vivência de ser no mundo.

Num certo sentido, foi a isto que em Gestalt Terapia, ainda que um tanto quanto impropriamente, se chamou de “Neurose”6: A incapacidade para a auto regulação organísmica e para o ajustamento criativo no campo organismo-meio. Em função da soberania, no modo de ser, do corpo tenso, porque dissociado da vivência das possibilidades de sua ato-ação, indissociáveis e inalienáveis enquanto ser no mundo. A incapacidade para a auto regulação organísmica e para o ajustamento criativo no campo organismo-meio, em função da soberania do ser abstrato, abstraído, distanciado e excluído dos níveis mais básicos e viscerais de sua vivência de ser no mundo, e de suas possibilidades e possibilit-ato-ações (privilegiados no socratismo da cultura da Civilização Ocidental). Exatamente por isto, obsessivamente reflexivo, deliberado e arbitrário (decidindo reflexiva e arbitrariamente à revelia da espontaneidade vivencial das possibilitações do contato); a soberania do ser conceitual, do ser enclausurado na habitualidade do passado, exilado do possível.

A incapacidade, assim, para a auto regulação organísmica e para o ajustamento criativo no campo organismo-meio. A incapacitação para a vivência da espontaneidade de ser no mundo e da moviment ato ação de um corpo harmônico e efetivativo, de uma vivência de consciência poiética criativa. Em função da soberania, no modo de ser, da insensibilidade para a possibilidade, para a vivência do ser no mundo, para o contato do ser no mundo com seu possível. A incapacitação para o desdobramento de suas possibilidades, o desdobramento das possibilidades de um pré-ser-se ontologicamente inerente às possibilidades de ser humano, incubado e incumbido a cada momento na condição de ser humano.

A insensibilidade para a possibilidade de ser, e o mecanicismo gangrenengrenado de um ser desprovido de possibilidades. Que cada vez mais se abstrai e se esteriliza, se “purifica”, obsessivamente, obsessivamente se conceitua e conceitua os outros e o mundo, se reflete, se tensiona e enrijece, e, no limite, se vinga e se mata, e é querer matar tudo o que é vida e se move e é forte, e é espontâneo, e é bonito: tudo que é vida e pulsa com a prenhez do possível. Querer matar por que se é, em si mesmo, auto contraição, digo, auto contradição, do possível de que se é grávido inevitavelmente. Querer matar, basicamente, porque se é habitual e basicamente auto mortificação, passado. Incapaz e impotente para tornar-se o que se é como possível.

Não é outra a condição da “neurose” em Gestalt Terapia… Mas isso não tem nada a ver com neuro…

Existencialmente, o possível, dimensão ontológica do ser no mundo que é o humano, prescreveu-se, congelou-se. Re-premiu-se a vontade (força) do possível, pela re-pressão da espontaneidade do corpo e da vivência de ser no mundo. Em, e através de, uma consciência obsessiva e de um corpo progressivamente compulsivo, tenso e doentio. Através do comportamento compulsivo e excludente, de uma ato ação constipada, de um sujeito prepotente, de um corpo, de uma abstrata consciência, e de um mundo, alienígenas, desmembrados de sua vivência integrada e integrativa, possibilitativa, de ser no mundo.

Nietzsche7, no Zaratustra, comentando acerca do aprisionamento da vontade (da força) do possível, bastante pertinente à condição da “neurose” tal como é concebida pela Gestalt Terapia, observa:

Vontade — assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria: foi isso que vos ensinei, meus amigos! Mas agora aprendei também: a vontade, ela própria, ainda é prisioneira.

(…)

‘Oh!, todo prisioneiro se torna louco! A vontade prisioneira liberta-se também pela loucura!

‘E a sua raiva é que o tempo não volta atrás; ‘Aconteceu’, assim se chama a pedra que ela não pode deslocar.

‘E, por raiva e por despeito, levanta pedras e vinga-se naquele que não experimenta como ela raiva e despeito.

‘Deste modo a vontade que liberta torna-se malfeitora: e vinga-se em tudo o que pode sofrer, pelo facto de não poder voltar atrás.

‘Isto, e somente isto, é a própria vingança: a antipatia da vontade a respeito do tempo e do seu “Aconteceu”.

‘Na verdade, a nossa vontade é habitada por uma grande loucura; e para maldição de tudo o que é humano, esta loucura aprendeu a ser espírito.

‘O espírito de vingança’ (…) e onde quer que tenha havido sofrimento sempre se tornou necessário um castigo.

Castigo’, na realidade é o próprio nome da vingança: simula uma boa consciência com uma palavra mentirosa.

‘E como há sofrimento naquele que quer, porque não pode querer voltar atrás, a própria vontade e toda a vida deveriam ser — um castigo!

‘E eis que as nuvens se acumularam sobre o espírito: até que finalmente a loucura proclama: “Tudo morre porque tudo é digno de morrer!”

‘E esta lei que quer que o tempo devore os seus filhos é a própria justiça: assim proclamou a loucura.

‘As coisas estão ordenadas moralmente segundo o direito e o castigo. Oh!, onde está a libertação do curso das coisas e do castigo da existência?’ — assim proclamou a loucura.

A seguir, Zaratustra reitera os seus segredos e os seus caminhos, na afirmação da vontade, na libertação do possível e da criação, e reitera a sua crítica a uma cultura ainda prisioneira da vontade negativa: do ressentimento e da culpa, do niilismo, pela repressão da vontade, e do possível.

(…) ‘o querer é um criador.’

Todo o ‘Aconteceu’ é um fragmento, um enigma, um terrível efeito do acaso — até ao momento em que a vontade criadora acrescente: ‘Mas foi assim que eu quis!

Até ao momento em que a vontade criadora acrescenta: ‘Mas é assim que eu quero! Assim que hei-de querer!

Mas alguma vez falou assim? Quando o fará? A vontade deixa de estar atrelada a sua própria loucura?

Tornou-se já a vontade o seu próprio redentor e mensageiro da alegria? Esqueceu ela o espírito de vingança e todo o ranger de dentes?

E quem lhe ensinou a reconciliação com o tempo e alguma coisa de maior que qualquer reconciliação?

A vontade que é vontade de poder deve querer alguma coisa de maior que todas as reconciliações: mas como o irá fazer? Quem lhe ensinou a querer restabelecer o passado?

Na sua forma criadora, livre de sua loucura vingativa e auto negativa, a vontade afirmada, a afirmação afirmada, é passagem para o futuro, é trans-form-ação do passado. É o querer que liberta. Senhora do acaso do limite, que pode recebê-lo, afirmá-lo e metabolizá-lo, no engendramento criativo e efetivo do futuro. Que pode não só engendrar este futuro com a digestão do acaso e dos sentidos e efeitos do passado, mas re-significar o passado, conferindo-lhe outros sentidos e outros efeitos. Sentidos e efeitos agora feitos e afeitos à força da vontade em sua afirmação.

De modo que o grande segredo da plasticidade do passado é a afirmação da vontade, a afirmação da força de ser, o tornar-se o que se é, re-tornar, e tornar o mundo. É a possibilidade de engendramento de novos sentidos e de novos efeitos do passado, de engendramento do futuro, a possibilidade de criação, e de engendramento dos filhos próprios desta criação, tendo como matéria prima o acaso e os consagrados sentidos e efeitos do passado. Porque são possíveis outros efeitos do passado, e um outro passado é passível de invenção e de desejo.

Todos os sentimentos em mim sofrem e estão prisioneiros: mas a minha vontade aparece sempre como libertadora e mensageira da alegria.

Querer liberta: tal é a verdadeira doutrina do querer e da liberdade (…)

Não mais querer, não mais julgar e não mais criar. Ah!, que esta imensa fadiga fique sempre longe de mim.8

O quadro típico da “neurose”, segundo a concepção da Gestalt Terapia de Perls9: propriocepção e percepção final subconscientes, hipertonia da muscularidade e da deliberatividade, perda da capacidade para o funcionamento espontâneo e para a auto regulação organísmica, incapacidade para o ajustamento criativo, dicotomização corpo/mente e self/mundo externo; A atuação atípica dos mecanismos de emergência, ao nível do que se entende por “fronteira de contato”, os chamados “distúrbios na fronteira”, os distúrbios psicossomáticos …, decorrem, no limite, da inter dicção da dimensão da vivência do possível e de suas atualizações na vivência de ser no mundo.

Interdição por e para uma consciência deliberada e arbitrária, por e para um corpo tenso e inativo (ainda que compulsivamente comportamental, eventualmente). Uma subjetivação e uma objetivação desmembradas, alienadas, da dimensão e dos momenta da ato-ação das possibilidades de ser no mundo. Ou seja, da interdição e interrupção do processo do contato, do processo do desdobramento de suas possibilidades como desdobramento das possibilidades inerentes à vivência de ser no mundo.

  1. Gestalt Terapia como hermenêutica experimental do contato (situação hermenêutica e condições da situação hermenêutica). Onto poiética experimental do contato.

O possível, o pré-ser-se-no-mundo, condensam-se e adensam-se no sustenido e no susto do contato; mesmo no congelamento do susto do contato. O possível, as possibilidades e as possibilitações do pré-ser-se do ser no mundo, o contato e o seu desdobramento, estão sempre e inevitavelmente acessíveis, impõem-se na vivência de ser no mundo; freqüentemente de um modo imperioso, mesmo, e em particular, na sua interrupção…

Para a Gestalt Terapia, a saúde reside fundamentalmente numa identificação com o self, numa identificação com a vivência do self de ser no mundo.

Isto significa dizer, que a saúde reside em uma identificação com o vivido de ser no mundo, pré reflexivo e pré-conceitual, como a nossa experiência mais substancial, fonte eksistencial de nossa subjetividade, e fonte efetiva das dinâmicas de nosso ajustamento criativo e de nossas auto regulações organísmicas.

Esta identificação com o self comporta os momentos naturalmente rítmicos de retração da vivência de ser no mundo, e a reversibilidade rítmica, entre as duas dimensões, guardada a valorização de nosso ser hermenêutico, em nossa vivência de ser no mundo.

Como vimos, nesta vivência de ser no mundo constitui-se o processo do contato, e o processo hermenêutico fenomenológico existencial de desdobramento do contato, como desdobramento (da compreensão do ‘logos’) das possibilidades de ser inerentes à vivência de ser no mundo (interpretação fenomenológico existencial).

Do ponto de vista da Gestalt Terapia, o vigor do desdobramento experimental das possibilidades de ser, o vigor do desdobramento do contato, é um sintoma, um critério e uma condição de nossa saúde.

De modo que são dimensões naturalmente inerentes da existência os momentos de afastamento, ou mesmo de sustação, do processo do contato, e os momentos de seu desdobramento. Mas a reversibilidade rítmica entre os momentos de retração, ou de sustação, e os momentos de ato ação, de ato alização, é naturalmente imprescindível à saúde. Da mesma forma que o vigor da disposição experimental de contactação, ou seja, o vigor de atu alização, de ato ação, das possibilidades vividas constituídas na momentaneidade pontual da dinâmica da vivência de ser no mundo.

Para a Gestalt Terapia, a fragilização e o comprometimento da saúde decorrem de um comprometimento desta identificação com o self como vivência mais substancial de nosso ser. Decorrem de um comprometimento da reversibilidade naturalmente rítmica entre os momentos de afastamento, ou mesmo de sustação, do processo contato, e os momentos do processo de seu desdobramento, de sua atu ação, de sua atu alização, como atu ação e atu alização das possibilidades de ser inerentes à momentaneidade da vivência de ser no mundo.

Assim, o sentido da estratégia da Gestalt Terapia é o de criar espaço, tempo, e condições, para o vivido da vivência de ser no mundo, na momentaneidade da atu ação, da atu alização de suas possibilidades vividas de ser e vir a ser, para que o cliente possa dar-se a eles.

O sentido da concepção e da prática da Gestalt Terapia, assim, é o da criação de um espaço, de um tempo, de condições, e de uma certa pareceirização, seja com o terapeuta ou com o grupo, para um privilegiamento inter humano das dialogicidades da vivência das possibilitações de ser no mundo. Para uma otimização do processo do contato e do seu desdobramento, para uma otimização do ritmo da reversibilidade entre os momentos de retração e sustação do contato e do seu desdobramento, e os momentos de sua ativ-atu-ação.

Interessa-nos que o cliente possa ter tempo, espaço e condições para entregar-se ao momentum vivido de sua atualidade e de sua atualização, de sua vivência de ser no mundo. De modo que possa interpretá-lo, ou seja, que possa ser intérprete (num sentido fenomenológico existencial) de suas possibilidades e possibilitações, de acordo com o modo próprio e pontual da configuração destas.

O sentido da Gestalt Terapia é, pois, o de uma hermenêutica (a arte da interpretação) fenomenológico existencial experimental do contato. Uma opção pela, e um privilegiamento ativos, da possibilitação da inter humanidade dialógica, do espaço e do tempo próprios da ontopoiese naturalmente decorrente do desdobramento (interpretação) fenomenológico existencial do processo do contato. Da atu ação, da atualização, das possibilidades de ser no mundo, por parte de cliente e terapeuta, no contexto terapêutico.

Neste sentido, convém mencionar que a Gestalt Terapia propõe-se como logos metódico o de criar condições para a afirmação da condição humana, na medida que10 o próprio ser no mundo é hermenêutico, na medida que sua própria eksistencia é interpretação fenomenológico eksistencial – mais ou menos artística, vale dizer. Na medida em que se gera e regenera através da ato ação, atualização, desdobramento (interpretação) de suas possibilidades de ser.

Como observamos, o contato, como o entendemos é a própria ato ação momentânea e monumentual da possibilidade de ser. Que pode ser sustada, eventualmente, ou de modo mais ou menos habitual, e crônico.

A interpretação, ousada, e naturalmente a/venturesca, artística, fenomenológica e existencial deste desterritório e tempo do vivido, da vivência, a interpretação ousada das possibilidades e possibilitações do ser no mundo – desdobramento das possibilidades do ser no mundo, desdobramento do processo do contato –, configuram o que entendemos como experimental, num sentido fenomenológico e existencial.

A Gestalt Terapia é, assim, uma abordagem eminentemente experimental, no sentido fenomenológico e existencial. É a prática de uma hermenêutica (“arte da interpretação”) fenomenológico existencial experimental das possibilidades de ser do ser no mundo, do contato.

Daí que o modo vivido da consciência (digamos) — e não o modo reflexivo, teórico –, o tempo e o espaço do vivido, da ruminação, e da ex-pressão, sejam as modalidades caracteristicamente privilegiadas da vivência no âmbito peculiar da Gestalt Terapia. Uma vez que é neste modo de ser que o possível é possível e se desdobra.

Assim, para o cliente de contato assustado, sustado, interrompido; o cliente de padrão mais ou menos eventual, mais ou menos habitual, ou situacional, de interrupção do processo do contato, processo de atualização de suas possibilidades de ser no mundo, o que o Gestalt Terapeuta pode oferecer, no âmbito de seu poder, de seu espaço, de seu tempo, de sua dialógica parceria inter humana, é a abertura e a eventual concentração, na sua interpretação (hermenêutica fenomenológico existencial) da vivência imediata de seu ser no mundo. E de atualização, ato ação, de suas possibilidades de ser. Com a coragem, ousadia, e mesmo audácia, experimental que tal empreitada solicita

De modo que a qualidade do trabalho gestalt terapêutico diz respeito, específica e propriamente, à constituição de condições de potencialização da interpretação da ato ação, projetação, das possibilidades de ser do ser no mundo. Ou seja, as condições efetivas da prática de uma hermenêutica fenomenológico eksistencial, experimental, no âmbito de sua vigência, digo vivência.

Para o cliente que desenvolveu um padrão mais ou menos crônico, mais ou menos eventual e situacional de interrupção do processo do contato, a Gestalt Terapia oferece assim as condições hermenêuticas experimentais de uma potencialização da ontológica ontopoiese experimental própria à ousadia do desdobramento do contato em suas possibilidades e possibilitações.

Se propomos para o cliente momentos de vivência de uma hermenêutica experimental das possibilidades e possibilitações de seu ser no mundo, vale dizer que é exatamente esta, igualmente, a disposição do terapeuta gestáltico, na dialogicidade da relação inter humana com o cliente, ao longo do processo terapêutico. A disposição do gestalt terapeuta é uma disposição eminentemente experimental.

Neste sentido, creio, teremos interpretado aqui uma cartografia, ainda que esquemática, da Gestalt Terapia em sua concepção original. Própria e especificamente fenomenológica e existencial.

Alguns aspectos são fundamentais, e carecem de uma maior problematização e formulação, no contexto específico da concepção e da prática da Gestalt Terapia. Quais sejam: o caráter do contato como hermenêutica fenomenológico existencial experimental; a situação e as condições desta hermenêutica fenomenológico existencial no contexto da prática Gestalt Terapêutica; a poiese, ontopoiese, constituinte desta hermenêutica. A natureza de seu caráter especificamente experimental, num sentido fenomenativo existencial. E o próprio papel do psicoterapeuta.

1 op. cit. pp. 147-99.

2 PERLS, Frederick s., HEFFERLINE, Ralph F, GOODMANN, Paul Gestalt Therapy. Excitement and Growth in Human Personality. New York: Penguin Books, 1969.

3 PERLS, F. S. op. cit pp. 320-78; p.353.

4 PERLS, F. S. op. cit. pp.299-319.

5 PERLS, F.S. op.cit. pp.467-500.

6 PERLS, F.S. op.cit. pp.267-98.

7 NIETZSCHE, F Assim Falava Zaratustra, Lisboa: Europa América, 1978. pp. 137-9.

8 NIETZSCHE, F. op cit. p 82.

9 PERLS, F.S. ibid.

10 HEIDEGGER, M. op. cit. pp.18-24.

O perfeito, performação e performance estética, fenomenológico existencial, hermenêutica, experimental


afonso da fonseca

Estética fenomenológico existencial hermenêutica experimental, performática, per(form)ativa, em gestalt terapia e em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial

Di Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

Não conheço ópticas mais separadas do que a do artista que observa a elaboração de sua obra (quer dizer, se observa a ele próprio) com o olhar de uma testemunha; e a do artista ‘que esquece o mundo’: este esquecimento é a essência de qualquer arte monólogo; a arte monólogo assenta no esquecimento, a arte monólogo é a música do esquecimento.”“.

F. Nietzsche. A Gaia Ciência.

… faça o que eu digo
faça o que eu faço
aja duas vezes antes de pensar

(in Bom Conselho. Chico Buarque de Hollanda)

A especificidade do logos metódico da Gestalt Terapia, e a sua contribuição para a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, — e para a psicologia e psicoterapia, de um modo geral — ,é, em grande parte, a do desenvolvimento experimental, e a experimentação do valor da psicologia e da psicoterapia de uma estética da existência, como condição metódica para a vivência estésica, per-form-ativa, de atualização fenomenológico existencial de possibilidades por parte do cliente. A Gestalt Terapia, constitui-se, experimentou, e experimenta-se, assim, como uma estética performática experimental da existência. Ou seja, a Gestalt Terapia entendeu o radical valor existencial deste modo de ser; e, em particular, a riqueza de sua propiciação, no âmbito do trabalho psicológico e psicoterápico, como metodologia hábil no propiciamento da atualização de possibilidades por parte do cliente.

Importante notar, que a atuação do terapeuta e do psicólogo, no âmbito inter humano de sua relação com o cliente, e com o grupo, é, alinhada com esta concepção metodológica, igualmente, estésica, estética, experimental, e performática; dramática (ativa), poiética (fenomenativa existencialmente generativa). Isto significa que não é teórica, não é reflexiva, não é moralista, não é científica, não é técnica, não é comportamental.

Ou seja, da mesma forma que a Gestalt Terapia preconiza e propõe, para o cliente, a oportunidade pontual e regular, e o desenvolvimento da habitualidade, do estilo existencial de uma estética performática experimental – estética performática esta de sua atualidade, de suas questões, e dos elementos de sua crise existencial — ela propõe esta mesma estética performática fenomenológico existencial experimental, como logos metódico, para a ato ação do psicoterapeuta e para a ato ação do psicólogo.

De modo que é extremamente interessante, para o esclarecimento de concepção e método da Gestalt Terapia, em Psicologia e Psicoterapia, a compreensão dos sentidos particulares, valores e interesses, do modo de ser desta estética performática experimental da existência, e de sua ato ação, atualização.

O logos metódico da Gestalt Terapia – com o qual ela contribui – é, assim, o logos de uma estética existencial experimental e, especificamente, o logos metódico de sua vivência performática – vivência fenomenológico existencial, fenomenativo existencial — per-form-ativa.

A performance é o modo de ser, fenomenológico existencial experimental, especificamente ativo e poiético, da vivência. Através do qual se dá a atualização fenomenoativa do possível, enquanto tal, como fenômeno existencialmente vivido. Esse processo generativo no ser-no-mundo configura o que chamamos de poiese.

De modo que, nem teórica, nem prática – nem técnica, nem comportamental, nem objetivista –, nem científica, nem moralista, muito menos realista –, a metodologia da Gestalt Terapia é, especifica e eminentemente, estésica, uma este(sia)ética, experimental, performática, e poiética.

Nietzsche diria, física, em contra/posição a quaisquer das possibilidades abstratas da meta-física. Física, vivencial e vividamente vivida; é, assim, a performance.

Na performance assim (entendida do ponto de vista fenomenológico e existencial), naturalmente, o possível, a possibilidade, enquanto tais, vivencialmente transitam — pela ação — de uma condição de pré-compreensão, compreensão, interpretação1 e objetivação. Concluindo-se, assim, fechando-se, como o per-feito, no processo da performação, do perfazimento, da perfeição (a gestalt).

PER

O prefixo per significa: cabalmente através de, plenamente através de. Enquanto que feição, do Latim, significa ‘fazer inteiramente, acabar, terminar, perfazer; fabricar (com arte)2.

A “forma”, num sentido fenomenológico existencial, refere-se às formas do vivido. De modo que temos, do ponto de vista fenomenológico existencial, a performance, a performação, especificamente per-feição, perfazimento, como designação do processo da vivência fenomenal, no qual a forma se constitui, como processamento pré-compreensivo, a partir da força do possível fenomenalmente vivido; e se configura como tal, como atualização compreensiva; meramente compreensiva, e/ou mais ou menos inter humana, e/ou mais ou menos objetivativa.

Especificamente, o im-per-feito é o inconcluso. O inacabado, o incompleto. O mal executado; e, portanto, feito incorretamente; defeituoso, malfeito, incorreto3. Cujo ciclo (digamos) da per-feição, o ciclo de sua performance, de sua per-formação, de seu completo perfazimento, do perfazimento de sua totalidade, não se concluiu, não se fechou. O imperfeito, é a performance, a performação, a perfeição, o processo de formação figura-fundo, encalacrados. Inter-rompidos, inacabados, mal acabados, abertos.

Ah, a frustração e a queixa da mulher quando o homem não quer e/ou não sabe esperar; e o abraço e o beijo encadeados e conclusivos da inter humana dialógica da per-feição.

PERFEITOS E PERFEIÇÃO TEÓRICOS?

Freqüentemente, os sentidos de perfeito, de perfeição, obedecem a critérios abstratos de avaliação, critérios alienados do físico processo de sua per-feição, processo vivencial de elaboração fenomenológico, fenomenativa, existencial. Podemos, ter, assim, abstratos, o “perfeito”, a “perfeição” meta-físicos… Não vivenciados, mas abstrações, exatamente, do processamento da vivência de sua perfeição, de seu perfazimento, de sua per-formação.

Uma contradição em termos, naturalmente. Porque o que caracteriza o perfeito é, exatamente, a vivência do processamento de sua elaboração fenomenológico existencial, o seu perfazimento como vivência, o processo de seu perfazimento, como vivência física, corpo-ativa.

Mas podemos pensar, assim, e muito vigora, o “perfeito” meta-físico. De uma “estética” que, curiosamente, não é estésica! Mas, mais própria e especificamente, é conceitual e abstrata; e que, por isso mesmo, especificamente, não é estética. É moral e moralista.

O perfeito metafísico se constitui como adequação ótima de algo a um seu modelo teórico; ou, mais especificamente, a um seu conceito. Um “perfeito” teórico, que nada tem de vivencial, de vivenciado. Mais que isso, um “perfeito teórico, especificamente como afastamento da vivência fenomenal de ser-no-mundo, um “perfeito” teórico que nada tem da experienciação do‘perfazer’, da processualidade vivencial do ‘fazimento’ (perfazimento, performance, performação), vivido. Que nada tem de ‘feitura’, como encadeamento de atu(aliz)ação vivida de possibilidade, como possibilitação. Mas que se constitui de comparação e de avaliação, teóricas, de adequação, do fato ao conceito4, comparação e avaliação abstraídas, e especificamente afastadas, alienadas, da vivência.

PERFORMANCE ESTÉTICA

Naturalmente, na concepção e metodologia da Gestalt Terapia, e em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, não se trata deste tipo de “estética” teórica e conceitual, abstrata, meta-física; na verdade, estática. Trata-se, de fato, da estética, que podemos dizer, redundantemente, da própria estesia da vivência do perfazimento: estética da própria estesia da vivência do perfazimento. Assim, podemos conceber o perfeito como processo e resultante da própria vivência experimental, fenomenológico existencial hermenêutica, processamento encarnado, da per-feição; não meta-físicos, mas físicos. O feito, per-feito, resultante do processo – da travessia fenomenativa — da per-feição .

E, mais uma vez, como diria o Riobaldo Tartarana (aliás, per-feito por Guimarães Rosa), a verdade, a per-feição, não se põe nem no início nem na chegada, mas na travessia

Na travessia…

Este o sentido deste “per”, que está em per-feito, em per-feição, em
per-formance, em per-formação em per-fazimento. Perfeição de …

Travessia vivencial da feição, a per-feição é, especificamente, o perfazimento, a per-formação, a performance, num sentido de processualidade primária e eminentemente vivencial, fenomenal.

Performance que é sempre dialógica, na medida em que é toda ela e sempre dialógica do possível e de sua possibilitação. Performance que é freqüentemente inter humana. Performance que pode, meramente, ser, como mencionamos, o desdobramento (“subjetivo”) de uma compreensão, na performação compreensiva (atualização compreensiva) (a “caída da ficha”…) E/ou que pode ser mais ou menos performação, perfazimento, objetivativo. Este mesmo, mais, ou menos, organismicamente compreensivo; mais ou menos voluntário ou espontaneamente expressivo, mais ou menos motor, ou sensível, mais ou menos objetivativo. Ainda que, sempre, na ótica da expressividade sentida e vivida, e caracteristicamente desproposital.

De parte de um sujeito?

Em seu momento próprio, não exatamente. Pelo menos no que interessa, e é vital.

Na medida em que, fenomenal, o processo da performance se desenvolve como vivência espontânea de desdobramento de possibilidade. Que, como tal, é vivido e vivencial, fenomenal, fenomenativo. E não é, assim, da ordem das relações sujeito-objeto. Da mesma forma que não é da ordem das relações de causa e efeito, que não é da ordem do útil e da utilidade; que — como possível pré-compreendido e possibilitação — não é, mesmo, naturalmente, da ordem da realidade.

Similarmente, como observamos, o processo vivencial da performance, não é da ordem da teoria, não é da ordem da prática, nem da ordem do comportamental; não é da ordem do científico, muito menos da ordem do técnico. Não é da ordem do explicativo. É, especificamente, da ordem do compreensivo, da ordem do dialógico, e potencialmente da ordem da dialógica compreensão inter humana. É da ordem do poiético, do hermenêutico. Que, atu(aliz)ação de possibilidade, transita, como vivência, de pré-compreensão de possibilidade, para a sua possibilitação. Em seu característico, e próprio, despropósito poiético.

Estamos, assim, bastante distantes do “perfeito”, e de uma “estética”, meta-físicos, estabelecidos por comparação, teoricamente, abstratamente (abstraídos, justamente, do processo vivido da per-feição).

Precisamos, assim, em Gestalt Terapia, em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, desta compreensão do que é o perfeito, a performação, a performance fenomenológico existencial experimental. A compreensão do caráter eminentemente vivido, pré-reflevivo, pré-conceitual, intuitivo, fenomenal, hermenêutico, fenomenológico existencial, experimental, ativo, per-form-ativo (poiético)(de travessia da vivência da duração), do processo de sua feição, per-feição; especificamente física, corpo-ativa, estésica, est-ética…

Ou seja, precisamos da compreensão do quanto este processo ativo — mais ou menos compreensivo/intuitivo, mais ou menos espontâneo/voluntário, mais ou menos compreensivo ou motor (o próprio “caminho do meio”) –, o quanto este processo é, em seu momento e movimentação próprios, especificamente, vivência corporal, vivência corpoativa, sentidos, sentidação. Estésico, assim, neste sentido (vivência configurativa das sensações, como totalidades compreensivas específicas, e especificamente diferentes da soma de suas partes, sensibilidade, capacidade de perceber o sentimento da beleza).5 Propiciado por uma est(esia)-ética. Por uma Estética. Que é um modo de proceder (uma ética), uma atitude de ação, que privilegia o, fenomenal, o ponto de vista estésico. O ponto de vista, fenomenológico existencial, da sensibilidade, da vivência, da capacidade de engendrar e vivenciar o belo, o perfeito.

Deste modo, a vivência gestáltica, o logos metódico da Gestalt Terapia, e da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, além de se caracterizar como sendo fenomenológico existencial experimental, é, por isso mesmo, uma metodologia estética e performática experimental. O interesse metódico em Gestalt Terapia é o da experiência experimental da vivência estésica da per-feição, no estésico engendramento próprio do perfeito, e na vivência e apreciação estésicas de sua perfeição. Uma estética, como processo hermenêutico de atualização de possibilidades, no âmbito da atualidade e atualização existencial do cliente. Uma estética como procedimento metódico do terapeuta/psicólogo.

Estética como atualização meramente compreensiva, muito freqüentemente. Ou estética como atualização objetivativa. não importa. O que importa é a natureza per-form-ática experimental da sua experiência. E o desenvolvimento do ponto de vista estético, como critério existencial. Ao mesmo tempo que o desenvolvimento de um estilo existencial performático experimental, vigoroso, robusto, e sensível, no eterno e incontornável processo existencial de atualização de possibilidades, no humano ser-no-mundo. Processo que do possível e do próprio mundo se nutre, no enfrentamento com, e no afrontamento criativo do mundo e da vida coisificados; e no afrontamento e enfrentamento criativos da fatalidade da própria coisidade e da própria coisificação da realidade realizada, fatalizada.

O EXPRESSIONISMO E O LOGOS METÓDICO ESTÉTICO PERFORMÁTICO DA GESTALT TERAPIA E DA PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL

Histórica e paradigmaticamente, não é certamente difícil acompanhar a linha constitutiva deste caráter fundamental da concepção e método da Gestalt Terapia e da psicologia e psicotrerapia fenomenológico existencial.

De um modo mais imediato, este caráter performático advém, de modo fundamental, do caráter performático do Expressionismo. Que, seminalmente, influenciou o desenvolvimento da concepção e método da Gestalt Terapia.

Num segundo momento (ou primeiro), a influência vem do perspectivismo nietzscheano, que já é fonte do perspectivismo, e do caráter performático do Expressionismo, enquanto movimento das artes européias da segunda metade do século XIX, e primeira metade do século XX.

Pois bem, a experiência com teatro, em especial com o teatro de Max Reinhardt, que desde os quatorze anos de idade é experiência fundamental na vida de Fritz Perls, e no desenvolvimento da Gestalt Terapia; a experiência de Laura Perls com teatro e com expressão corporal, igualmente importantes, no desenvolvimento da formulação conceitual e metodológica da Gestalt Terapia, são experiências com artes cênicas e expressivas, de natureza e filiação especificamente Expressionistas. São experiência que profundamente marcarão o caráter do paradigma conceitual e metodológico da Gestalt Terapia.

O Expressionismo6 surgiu, nos finais do Século XIX, como um imenso, vigoroso e essencial afrontamento à hegemonia do Positivismo, do objetivismo científico, da ciência, da objetividade, do princípio de realidade, e da própria realidade.

Sinalizava o que viria a ser indicado, depois, pela fenomenologia existencial, pela filosofia da existenz, e pelo existencialismo. Ou seja, que, fora, e distanciados, desse modo de sermos que é a experiência fenomenal, fenomenológica e fenomenativa do vivido (que não é da ordem do conceitual e do teórico; que não é da ordem da objetividade, nem da ordem da subjetividade, nem mesmo da intersubjetividade: porque não é da dimensão da dicotomia sujeito-objeto; que não é da ordem da dimensão da vivência das causas e dos efeitos, dos meios e dos fins; que não é da ordem da utilidade, portanto; nem da ordem da realidade, na medida em que é, antes, essencialmente prenhe de possíveis não realizados), distanciados deste modo de sermos da vivência fenomenal, eminentemente experimentativa, estamos exilados do que nos é ontologicamente mais essencial.

A Experiência fenomenal do vivido não se movimenta no âmbito da explicação, da teoria e da conceituação; também não se movimenta no eixo das causas e dos efeitos, da causalidade. Não é da ordem da utilidade, ainda que dela brotem todos os úteis e as suas utilidades, mesmo que dela provenha a objetividade do mundo. Sobretudo, é experiência que não é da ordem da realidade (no sentido objetivo do termo), na medida em que não é da dimensão da objetividade; e é, muito mais, impregnada de possível e de ação possibilitativa, do que de real.

Pois bem, fora e distanciados dessa insólita experiência fenomenal e fenomenativa do vivido, sinalizava o Expressionismo estamos exilados. O mundo, enquanto realidade objetivada não é a casa do homem, como diria Heidegger.

Num momento em que o mundo e a vida coisificados avizinhavam absurdos e terrores nunca imaginados, a vivência fenomenativa humana reivindicava expressão, em seus próprios termos. E veio o Expressionismo, representado, naquele momento, pelo pavor do Grito, de Munch.

O Expressionismo reivindicava, então, expressão e lugar para este modo de sermos que é o vivido, o fenomenal, o existencial; potente e possibilitativo, poiético. Mesmo, e em particular, contra a estranha sensação de absurdidade, por não ser esta dimensão essencial do humano e do mundo, da ordem das relações sujeito-objeto, da ordem das relações de causa e feito, da ordem da utilidade, nem mesmo da ordem da realidade.

O Expressionismo7 surge, então, como um estilo, artístico.Mas, na verdade, com muito mais amplas implicações; implicações em particular culturais, e especificamente existenciais. Um estilo artístico e existencial, que intenta centrar-se na, e concentrar, a experiência dita subjetiva: a experiência fenomenal, fenomenológica e fenomenativa do vivido.

De modo que, centrada, e própria, e otimamente, concentrada, possa esta experiência manifestar-se potente, fluída, expressiva, e integralmente; como ato expressivo, como performance, per-form-ação. A performance que configura a obra de arte, ou o desempenho artístico, como per-feição, como per-feito; se transita, plena e fluidamente, pelo ciclo de sua complementação, ciclo de sua per-feição, de seu perfazimento, na expressão, ato(aliz)ação, mais ou menos compreensiva, e sempre fenomenativa; mais ou menos objetivativa, da forma de um possível, que se atualiza em sua per-feição.

A experiência do vivido podendo concentrar-se como uma mola, ou como a musculatura de uma pantera no prenúncio do bote; e botando, atu(aliz)ando o bote expressivo, na performance.

Assim nasceu, e atualizou-se, uma Isadora Duncan, e sua dança expressionista; a arte dos pintores expressionistas, dos escultores, do teatro expressionista, do cinema expressionista (uma idéia na cabeça, e uma câmera na mão…), da arquitetura expressionista, da pedagogia expressionista… da Gestalt e da Gestalt Terapia…

Sempre, o artista expressionista é um artista performático, neste sentido. Não apenas nas artes cênicas, como no teatro e na dança, por exemplo. Nas artes plásticas, os escultores e os pintores são, igualmente, performáticos expressionistas. Concentrando artística e sensivelmente a vivência fenomenativa de sua inspiração, como a musculatura de uma pantera armando e presentificando o seu bote, e botando, na conformação performática, no perfazimento, de um per-feito artístico, como obra de arte. Assim, mesmo um pintor ou um escultor expressionista é performático.

Num sentido radical8, são eminente, própria, e especificamente, estésicos e
est-éticos, os performáticos expressionistas. Centram-se, e buscam adensar, a vivência fenomenal, a sensibilidade, corpo, vivido, sentidos, na vivência da configuração de seus possíveis, e de suas possibilitações; e investem-se estésicamente, o que quer dizer esteticamente, na performação vividamente vivida, e expressiva, de um per-feito como feito artístico.

A beleza e a magnanimidade, a incomensurabilidade, fascinação, graça e mistério, deste feito, a sua perfeição, advêm do processo próprio de sua feitura – específica e propriamente per-feitura. Que, essencialmente, permite e configura-se como a atualização per-feita, em sua formação e ex-pressão (ex-pulsão) plenas, de um possível; na estesia do processo de sua per/feição.

Toda a sua guiação, portanto, a guiação da perfeição e da performance, é, eminentemente, estésica; especificamente estética. A aquiescência na estética, e a vivência estésica e pré-compreensiva de uma configuração de possíveis. E a estética, e a estesia, de sua atu-ação, mais ou menos compreensiva, ou mesmo no lusco-fusco organísmico da compreensão; mais ou menos objetivativa, mais ou menos motora, mais ou menos voluntária/espontânea, mais ou menos interhumanamente inter-ativa.

A estética e a estesia de dar à luz, como feito, como perfeito – e bendito, vale dizer – algo de absolutamente singular, novo, criativo, original e belo, em sua acabada per-feição.

A vivência estética, estésica, do sentimento de beleza advém da estesia de ser-se e exercer-se à imagem e semelhança de Deus, ou de ser-se e exercer-se divino, no processo da perfeição criativa.

VIGOR, BRILHO, INTENSIDADE, FASCINAÇÃO, UNIDADE, GRAÇA

Todo este processo de feição, de perfeição, perfazimento, é, enquanto processo vivido — vividamente vivido –, processo de formação de figura e fundo. Como indicou Perls9, este processo de formação de figura e fundo tem, é, em si, a fonte da avaliação e do valor. E tem características, fenomenológico existencialmente vividas, intrínsecas e peculiares, tais como vigor, brilho, intensidade, fascinação, unidade, graça

Tais características estéticas fenomenologicamente intrínsecas ao processo de formação de figura e fundo decorrem especificamente da qualidade estésica, estética, vivencial, do processo da performance, do processo da perfeição. Que é propiciado, vivido, concluído, e avaliado, esteticamente, o que quer dizer estesicamente.

São características do processo de formação figura-fundo performático que se perdem na imperfeição: ou seja na im-per-formação. Quando a per-formação, a performance, é interrompida em sua per-feição, e resta o per-feito inconcluso, inacabado. Específica, e propriamente, imperfeito, encalacrado e interrompido, aprisionado, no processo de sua per-feição.

PERFORMANCE E A POSSIBILIDADE DO DESEMPENHO HISTÉRICO. A VIRTUALIDADE É A DOENÇA.

De um modo curioso, podem ser aparentemente próximas, ainda que decididamente inconfundíveis, a performance e a histeria.

E, a bem da verdade, o próprio Expressionismo chegou a ser acometido em certos momentos pela confusão, e pela ameaça do desempenho histérico. Que meramente simula a performance; na sua insensibilidade, e impotência, para a vivência da perfeição, e para a oferta ao mundo de algo perfeito a partir de possíveis.

A própria Gestalt Terapia, e mesmo a sua cultura, já foram afetadas pelo mal entendido. Talvez o seja menos, hoje. O risco, aliás, é corrente, na medida em que a confusão entre performance e desempenho histérico grassa, panepidemicamente, na cultura da modernidade. Certamente como uma aversão ao possível e à possibilitação, e em conseqüência de seus investimentos radicais na mímesis, na imitação e na simulação, na cultura do espetáculo e do parecer.

Creio que a advertência com relação à possibilidade da confusão entre performance e desempenho histérico já é feita no I Ching10, no Hexagrama 61. Que é representado pela pata de uma ave sobre um ovo, a chocá-lo.

Se o ovo estiver efetivamente choco, fecundado, e contiver um embrião, o choco (o ato de chocar) chegará a termo, na geração de um pintinho.

Mas, se o ovo não estiver fecundado, por mais que a ave o choque, dele não resultará um pintinho…

Suprema metáfora da ação… A ação que decorre de uma “verdade interior”, ou seja, que está em si emprenhada, impregnada, de possível, é como o desempenho, a performação, perfazimento, de um ovo fecundado. Em seu momento oportuno, dará à luz o fruto perfeito de sua novidade.

A ação que não decorre de uma verdade interior, que não se enraíza num possível e em sua atualização, não gerará frutos nem novidade, e será estéril.

O “embrião” da perfeição, e do que especificamente podemos entender como ação, como ato, como fruto e novidade – diferentemente do desempenho histérico — é a impregnação estésica e estética pelo possível, e a sua performação, perfeição, em um per-feito.

Simulação, o desempenho histérico, não está fecundado por este “embrião”, pela vivência fenomenal do possível; e pela disposição para a perfeição, para a performance, por ele alimentada e potencializada, no engendramento de um per-feito. Infenso e hostil ao possível e a sua possibilitação, infenso e hostil à novidade, à criação, à mudança, o desempenho histérico fecha-se para eles, e é comportamento estéril. Mera virtualidade.

E esta virtualidade — que se impermeabiliza para o possível, reprimindo-o, quando poderia atualizá-lo, em sua urgência e emergência, no processamento de sua perfeição –, é a doença propriamente moderna, insidiosa e panepidêmica.

Prestemos atenção, pois, a virtualidade é a doença.

Nada mais distinto, portanto do que performance estética e desempenho histérico

[]

PERFORMANCE E SENTIDO DO TRÁGICO

Uma última consideração, importante.

A de que a vivência do possível e de sua atualização na per-feição, a performance, de um perfeito, demanda eminentemente como condição a estética e a estesia do sentido trágico, tal como Nietzsche o recuperou dos Gregos antigos.

Atualização de possibilidades, eminentemente, a vivência estésica do possível, esteticamente propiciada, demanda e configura a superação da medida do estabelecido como tal, em sua individualidade; e a sua superação.

Na performance, e em decorrência da performance, nada será como antes. O preposto, e suposto, sujeito, estabelecido ao nível da realidade coisificada, desmesura-se de sua individualidade e de seu tempo próprio. Na vivência de um modo de ser que não mais comporta a dicotomia sujeito-objeto, pelo menos até o fim do processo da perfeição. Jamais será o mesmo preposto. Mudam as suas condições e o seu mundo objetivado, muda ele próprio, no engedramento da novidade do possível perfeito.

De modo que a vivência da performance, o engendramento do perfeito, na atualização do possível, determinam sempre finitudes. O sentido do trágico é exatamente a vivência compreensiva dessas finitudes, e a afirmação delas, como afirmação estética do possível e de suas forças formativas, da perfeição, da performance.

Sempre a alternativa entre a identificação com o que se fina, e declina na coisidade; ou a identificação com o incerto e aventuresco mergulho no possível e na possibilitação, como per-formação, como per-feição, dele decorrente; a identificação com a vivência estética da beleza e do belo na perfeição e no perfeito, per-formado.

Para o sentido do trágico, desde sempre e sempre, esta identificação com a vivência da potência do possível para a per-feição; a opção inquestionada pela identificação com o vigor, brilho, intensidade, fascinação, unidade, graça da perfeição e dos per-feitos

PERFORMANCE, ARTE MONÓLOGO E AMÚSICA DO ESQUECIMENTO. TOMADA DE INCONSCIÊNCIA, E DRIBLE DE CORPO NA CONSCIÊNCIA.

Em contraposição ao desempenho histérico, simulado, e dissimulado, da virtualidade, a performance, a perfeição, tem tudo da integração da arte monólogo, que se diferencia da arte diante de testemunhas, de que fala Nietzsche11, no aforismo 367 de A Gaya Ciência. Uma arte, a arte monólogo, em que o ator é todo ação, DRAMA. Arte monólogo eminentemene dialógica, ativa, fenomenoativa, experimental e poiética. Sem a possibilidade de que o ator em sua integração como tal possa configurar-se subsidiariamente como um observador de si mesmo, enquanto re-primiria a força do possível, e a sublimaria…

Tudo o que se pensa, escreve, pinta, compõe, ou seja, tudo o que se esculpe e constrói, revela ou da arte monólogo ou da arte diante de testemunhas. (…) Não conheço ópticas mais separadas do que a do artista que observa a elaboração de sua obra (quer dizer, se observa a ele próprio) com o olhar de uma testemunha; e a do artista ‘que esquece o mundo’: este esquecimento é a essência de qualquer arte monólogo; a arte monólogo assenta no esquecimento, a arte monólogo é a música do esquecimento.”“.

A característica do esquecimento é essencial à performance estética, e tema caro à filosofia da vida de Nietzsche. Isto porque, o que muito nos interessa, o processo da perfeição, a performance, em sua concentração fenomenativa, caracteristicamente instaura um esquecimento, é momentum de esquecimento. De modo que o esquecimento é mesmo uma condição específica de sua momentaneidade.

Nietzsche investe, a marteladas, contra a supervalorização da consciência. Um erro a supervalorização da consciência, diria ele, supervalorização que é da ordem do reativo, e não do ativo. A supervalorização da consciência constitui-se em supervalorização da memória, e supervalorização da história.

No âmbito desta supervalorização, proscrita a possibilidade do modo de ser do esquecimento, fenece miseravelmente a potência do modo de ser possível, e da possibilidade da performance estética que ela pode engendrar.

No sentido da garantia das condições da vivência perspectivativa, estética, performática, do possível, e de sua possibilitação, Nietzsche12 dirá:

(…) De fato, está mais do que no tempo de avançar contra os descaminhos do sentido histórico…

O homem teria de ler (na história) assim como Goethe aconselha que se leia o Werther: como se ela clamasse, ‘sê um homem e não me sigas!’13

Mais importante do que seguir a história é performá-la. E condição essencial da performance, do momento propriamente performático, é esta estética monólogica, retifica e ativa do esquecimento.

Todo agir requer esquecimento (…) Portanto é possível viver quase sem lembrança, e mesmo viver feliz, como mostra o animal; mas é inteiramente impossível viver sem esquecimento, simplesmente viver. (…) há um grau de insônia, de ruminação, de sentido histórico, no qual o vivente chega a sofrer dano e por fim se arruína, seja ele um homem ou um povo ou uma civilização.14

nas menores como nas maiores felicidades é sempre o mesmo aquilo que faz da felicidade felicidade: o poder esquecer ou, dito mais eruditamente, a faculdade de, enquanto dura a felicidade, sentir a-historicamente.15

E possa ser assim entendida e ponderada minha proposição: ‘a história só pode ser suportada por personalidades fortes, as fracas ele extingue totalmente’.16

Nesses efeitos, a história é o oposto da arte: e somente quando a história suporta ser transformada em obra de arte e, portanto, tornar-se plena forma artística, ela pode, talvez, conservar instintos ou mesmo despertá-los.17

1 v. FONSECA,

2 HOUAISS,

3 HOUAISS,

4 HEIDEGGER, M.

5 HOUAISS,

6 Expressionismo

7 Expressionismo

8 De tomar pela raiz, como diria W. Reich.

9 PERLS,

10 I Ching

11 Nietzsche, F, Gaia Ciência. Lisboa, Guimarães e Cia Editores, 1984. p. 276.

12 NIETZSCHE, F. PENSADORES, p.69.

13 Ibid.

14 op.cit. p 58. Grifo nosso.

15 Ibid.

16 op.cit. p 64.

17 op. cit. p 65.

Interpretando Max Reinhardt

afonso da fonseca

Di Afonso H. Lisboa da Fonseca, psicólogo.

O que intentava max rheinhardt? O que com ele aprendeu Perls e a Gestalt Terapia?

Para quem estuda a Gestalt Terapia, não terá certamente passado despercebido a marcante influência na formação de Fritz Perls da presença de Max Rheinhardt. Max Rheinhardt, no entanto, não chega a ser nem um ilustre desconhecido entre nós: é meramente um desconhecido. Apesar de sua influência fundamental no desenvolvimento do teatro e do cinema, em especial do teatro e do cinema expressionistas, nas primeiras décadas do século XX, na Alemanha; e da seminal importância de suas concepções no desenvolvimento da concepção e método da Gestalt Terapia.

Fritz Perls e Max Reinhardt são produtos de um mesmo tempo, de um mesmo momento histórico e cultural. Ou seja, a Berlim dos inícios do século XX, até a década de 30, mais especificamente 1933. Perls participou do empreendimento teatral de Rheinhardt, em especial do desdobramento de suas idéias revolucionárias com relação ao teatro. Desde os quatorze anos Perls participou de atividades teatrais inspiradas nas concepções de Rheinhardt, e estas tiveram um papel fundamental no desenvolvimento da concepção e método da Gestalt Terapia, por parte de Fritz Perls.

Max Rheinhardt nasceu Maxmilian Goldmann. No início da juventude, quando começou a lidar com teatro, mudou o seu nome. Tendo estudado economi e finanças bancárias, abandonou o ramo das finanças, para dedicar-se de corpo e alma ao teatro. Foi diretor de teatro, intérprete e importante proprietário de teatro na Alemanha e na Áustria anterior no nazismo. Sobretudo, foi um teatrólogo, revolucionando, no sentido da modernidade e do teatro expressionista, as concepções do desempenho e da representação teatral. Concepções que prevaleciam, até então, desde o Renascimento.

Fundamentalmente, o teatro naturalista de Max Reinhardt, que será uma influência fundamental no desenvolvimento do teatro e do cinema expressionistas, buscava a coragem na expressividade e interpretação da singularidade pessoal. Reinhardt abandonou a perspectiva de todo Realismo, em direção ao Expressionismo. Ou seja em direção a uma interpretação que se centrava no privilégio da vivência subjetiva, e na sua expressividade performática, sem uma submissão à reprodução de uma realidade objetiva.

Ao mesmo tempo, Reinhardt buscava reduzir, num sentido literal e prático, o espaço entre o ator formal e o público, entre o palco e a platéia. Num de seus teatros, Reinhardt estudou e operacionalizou concepções do palco que o situavam no âmbito da platéia, e que facilitava efetivava a comunicação entre os atores e a platéia, e facilitava a expressividade dos espectadores, que, enquanto tais, deixavam de ser passivos para se constituírem como atores e artistas, intérpretes.

Rheinhardt participava do desvelamento do caráter ilusório da realidade objetiva do Positivismo. E, em particular do primado do princípio de realidade. Reinhardt participava, em particular, do desvelamento das implicações eminentemente destrutivas e esterilizantes do radicalismo da submissão à realidade objetiva. Mais especificamente, da subordinação do existencial à ilusão da realidade objetiva e de suas demandas. Muito particularmente, na medida em que o existencial não é da ordem da realidade, mas é, fortemente, e no que lhe é essencial, da ordem do movimento e potência do possível e da possibilitação. Ao mesmo tempo em que não é, o existencial, da ordem das relações sujeito-objeto, subjetividade-objetividade, ou da ordem das relações de causa e efeito, ou da esfera da utilidade.

Neste sentido, Reinhardt comunga do ethos expressionista de conferir toda atenção à perspectiva do vivencial, destronando e absolutamente relativizando, o radicalismo realista, por sua impertinência e impropriedade existencial. Impertinência e impropriedade em termos de sensibilidade, de criação, de criatividade, e das forças trágicas da alegria.

Na medida em que buscava reduzir, e mesmo eliminar, a distância entre atores e espectadores, a distância entre o palco/atores e a platéia/público, Rheinhardt militava experimental e poderosamente pela idéia de que a arte cênica não é uma arte apenas de artistas formais, não é meramente uma arte do palco. Na verdade somos, todos, efetivamente atores e artistas, e carecemos fundamentalmente de exercemo-nos efetivamente como tais. Uma vez que esta condição constitui-se como a qualidade básica da existência e da condição humana.

Somos ontologicamente intérpretes, hermeneutas, num sentido fenomenológico existencial. A existência é fundamentalmente impregnada, e demandante, assim, de teatralidade. E só existimos efetivamente, na efetividade da existência, na medida em que nos arriscamos a assumir a nossa vivência mais particular, absolutamente singular, o seu caráter propulsivo, a sua potência e projetatividade — que, como tal, quer constituir-se em expressão — e efetivamente a expressamos/interpretamos.

Das concepções de Reinhardt, via Perls, a Gestalt Terapia herdou a disposição de um terapeuta intérprete experimental de sua vivência imediata (não conceitual, não técnico, não científico, nem comportamental). Como modo de mobilização e potencialização dialógica do cliente como intérprete, ator e artista dos vetores da dramática de sua existência, em específico de suas possibilidades e possibilitações.

A Gestalt Terapia se posta fundamentalmente na perspectiva de que a característica da existência, inclusive, e em particular na resolução de questões e dificuldades existenciais, deriva do fato de que somos intérpretes experimentais do desdobramento de nós mesmos, de nossas vividas possibilidades de ser, na propulsividade e modulações que lhe são próprias.

De modo que toda a concepção e método da Gestalt Terapia direciona-se praticamente no sentido de potencializar o cliente como intérprete do processo de constituição/superação de sua própria singularidade e singularização, nas condições de sua atualidade e atualização. No sentido da expressividade de suas questões existenciais, da resolução e superação destas. No sentido de potencializar o cliente como criador, intérprete, ator e artista.

Reinhardt desenvolveu o seu fecundo trabalho como teatrólogo, diretor de teatro, ator, e proprietário de vários teatros, inicialmente na Áustria, e depois na Alemanha, Berlim. Até que, com o desenvolvimento do nazismo, teve os seus bens confiscados, e foi obrigado a fugir da Alemanha. Tendo ido para os Estados Unidos, prosseguiu sua atividade teatral, dirigindo representações de autores clássicos, e de autores expressionistas, e com sua atividade cinematográfica. Um de seus filhos, jurista, foi escolhido para a Suprema corte dos Estados Unidos pelo presidente Jimmy Carter.

Vislumbre-e-ato do possível propulsivo Dialógica e arte dramática da improvisação

afonso da fonseca

Di Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

Sobre o sentido e importância do improvisativo na concepção e método da Gestalt Terapia e da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial

Laboratório Experimental de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial.

Os segredos da arte da espada consistem na criação de uma certa disposição mental que se faz sempre pronta para responder instantaneamente, quer dizer, i-mediatamente (…). Na medida em que o treino técnico é de grande importância,ele é, no final de contas, algo de acrescentado e adquirido artificialmente, conscientemente, calculativamente. A menos que a mente que se vale da habilidade técnica sintonize-se com um estado de máxima fluidez e mobilidade, qualquer coisa adquirida ou superimposta perde a espontaneidade do desenvolvimento natural. Este estado prevalece quando a mente está desperta para o satori. O que quis o espadachim foi fazer com que a disciplina se ativesse a esta concepção. Esta concepção não pode ser ensinada por nenhum sistema especialmente desenvolvido para este fim, ela deve crescer de dentro simplesmente. Na verdade, o sistema do mestre não era de fato um sistema no sentido próprio do termo. Mas existia um método “natural” em sua aparente loucura (…).
D.T Suzuki in ZEN AND JAPANESE CULTURE.

Gestalt Terapia — e qualquer abordagem fenomenológico existencial — tem a improvisação, a soberania da valorização do momentum improvisacional, como uma de suas características fundamentais.

Fundamental porque, em particular, é a im-pro-vis-ação –, este modo de ser ativo, que provê um vislumbre (Heidegger diria pré-compreensão) do possível e da possibilidade de seu desdobramento –, uma condição básica da perspectiva existencialista, da ontologia, da fenomenologia existencial, da concepção e método da Gestalt Terapia e de uma abordagem de psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. Grosso modo, o empirismo do vivido fenomenal é e permite a improvisação, como âmbito dialógico no qual o possível, o ato, a ato ação, se vislumbram, são possíveis e, efetivamente, se desdobram.

Daí ser interessante qualificar o que significa, e a importância, desta característica da improvisação na fundamentação filosófica, concepção e método da Gestalt Terapia e das abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e psicoterapia..

Nos círculos sérios e respeitáveis, moralistas em geral, a idéia em geral de improvisação é vista com um respeitável e sério balançar de cabeças, olhares reprovadores, bocas tronchas e risos sarcásticos…

E, diga-se de passagem, não há como não concordar, diante do sentido da “improvisação” num sentido vulgar e pobre: não estar preparado, não estar pronto diante de uma tarefa assumida. E “improvisar”, como lançar mão de capacidades ou recursos impróprios, inadequados, limitados, insuficientes para a responsabilidade que se tem diante, e para a qual não se teve o cuidado de se preparar, ou de saber, ou não, se podia estar preparado…

É certamente por isto que num certo momento o I Ching comenta, “…tudo que importa é estar preparado…”

De passagem, também se diga, que é uma soberba forma de incompetência o recurso habitual, mecânico, ao premeditado, ao comportamental repetitivo, aí incluído o técnico, ou ao reflexivo evitativo, quando a ação é requerida, a atualização, atu ação que interpreta o possível, e que só se possibilita no âmbito do improvisacional

Não é à improvisação num sentido vulgar que nos referimos.

A improvisação, tal como ela se configura existencialmente, e na prática de uma abordagem fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia, exige preparo…

O sentido vulgar de improvisação, e o moralismo, não podem obscurecer o sentido germinal da idéia de improvisação, e a fundamental importância não apenas deste sentido maior, mas, em particular, desta modalidade de ser na condição humana, em particular no desdobramento de suas questões existenciais. E, portanto, na fundamentação filosófica, concepção e método de uma abordagem de psicologia e de psicoterapia fenomenológico existencial.

Não é certamente exagero nem impróprio dizer-se que só existe ação na improvisação. E ação especificamente entendida como o vir-a-ser, ato ação, do possível…

Nietzsche chama a atenção para isso. Ele observa ( ) que, em geral, pensamos que premeditamos uma ação, e agimos de acordo com o premeditado. A premeditação, não obstante, é uma coisa — que pode inclusive não ser da ordem da ação, pode ser da ordem do comportamento, ou da reflexão, por exemplo — que efetivamente não são ação –; a ação é outra coisa, ou seja: a ação é um outro modo de ser.

A ação é um mistério…, diria Nietzsche ( ).

Como modo de ser, a reflexão, já é um re-torno à memória de um vivido, que em seu momento próprio foi ativo, mas que já se foi como vida vivida, ativa, encarnada; digo, não abstrata… É re-presentação, e não presentação…

O comportamento, aí incluída a técnica, é atividade estruturada passadamente. É repetição de formas padronizadas, condicionadas de atividade, para a qual já se pode ter uma expectativa.

O que deles, da ação e da reflexão, distingue a ação é o vir a ser de possibilidades, o re-torno, re-volta do possível. A ação, atu ação, é este re-torno, esta re-volta, do possível, a ação atu aliza o possível propulsivo.

Assim, o que caracteriza o especificamente ato, a ação, é que neles (uma) possibilidade(s) se atualiza (m), desdobra(m)-se, vem (vêm) a ser. Possibilidade que está extinta já ao nível dos modos de ser do comportamento ou da reflexão.

E aí é que está a questão. Carecemos vitalmente da reflexão e do comportamento. E eles são como “estar com os calcanhares no chão”. Nossa vida cotidiana carece do reflexivo afastamento, afastamento da vivência do modo de ser do vivido, para instrumentar-se, e contingenciar novas formas e possibilidades de ação. Necessitamos em nossa vida cotidiana da atividade padronizada e repetitiva do comportamento, e da reflexão, no desdobramento de funções igualmente padronizadas e repetitivas.

Num dado momento a ação seria, metaforicamente, como levantar-se na ponta dos pés. Não podemos permanecer na ponta dos pés. Daí que precisamos da reflexão e do comportamento.

No momento todavia da ação, da atuação, atualização de possibilidade, a reflexão e o comportamento não dão conta.

Por mais que estejamos adestrados neles, por mais que tentemos o seu modo específico de ser, inclusive (no que chamamos de) neuroticamente. Na reflexão e no comportamento ocorre como na metáfora de Buber: por mais que embaralhemos um baralho: as cartas permanecerão sempre as mesmas. Apenas a repetição.

O momento da ação é o momento da necessidade do possível, o momento da criação e da atualização do novo. Da experimentação que lhes permite.

Daí que Fritz Perls observa: as questões existenciais humanas só se resolvem experimentalmente.

Ou seja, pelo modo de ser do vivido e do desdobramento do vivido, no qual o possível, como incontornável dimensão ontológica, é possível e se desdobra. Em especial porque o comportamento e a reflexão, exteriores ao nosso modo de ser vivencial, não acessam a nossa dimensão ontológica do pré-ser, do possível “em nós” e do seu desdobramento. O comportamento e a reflexão não acessam, por impróprios, esta dimensão ontológica vivencial de nosso ser em que o possível é possível e se desdobra; a dimensão de nosso ser onde vigoram as possibilidades e a possibilidade de sua atualização e desdobramento. Possibilidade esta cuja vivência chamamos de experimentação.

O modo de ser da ação está fora, assim, do modo de ser da reflexão e do comportamento. De forma que o modo de ser próprio da ação, da atuação, atualização de possibilidades, é pré-reflexivo, vivido, e não comportamental.

Por definição, a ação, que atualiza possibilidades, não é comportada. O novo, a ação, não são da esfera do comportamento. A ação não é reflexiva, não é da esfera da reflexão.

A ação é própria deste modo de ser que é pré-reflexivo, o vivido, ser no mundo, o fenomenal, fenomenativo. Este modo de ser que, ontologicamente, contém, caracteristicamente, o vislumbre do pré-ser, o vislumbre do possível, em seu caráter propulsivo, em sua emergência e/ou urgência.

O que é próprio assim deste modo de ser — que não é reflexão, nem comportamento, e que é o vivido, fenomenal, pré-reflexivo, e pré-conceitual, — é que ele, caracteristicamente, além de ser vivido, pré-reflexivo e pré-conceitual, é sempre (vis) lumbre, lumbre (brilho, aparecimento, acontecimento) da emergência e/ou urgência vivida do possível, da possibilidade. Que se apresenta como emergência e/ou urgência de uma alteridade, de uma outridade, com relação ao nós mesmos, na qual estamos indissociavelmente, intencionalmente, vinculados…: Pré-ser, como diria Heidegger, possibilidade vislumbrada, e que, em sua força de possum, se desdobra como possível propulsivo em nosso ser no mundo…

É essa vislumbrada, vislumbre, vislumbração, da outridade, possível (possibilidade, potente, em sua emergência e/ou urgência, como vivência da possibilidade propulsiva que se desdobra como o “nós” mesmos/mundo, enquanto somos/vimos a ser) que se configura especificamente o como o vis vislumbre — da improvisação. (É interessante observar como vislumbre é uma palavra intencional, fenomenal. Como ela integra o ver com o brilho do visto, o vis e o lumbre).

Ou seja: esta vislumbração do possível é própria deste modo de ser, que é visação, ação vis-a-vis com a outridade do possível, pré-compreensão, que se dá como e na
im pró vis ação, e que é ação no âmbito deste nosso modo de ser vivencial, fenomenal, fenomenativo.

Na verdade, a improvisação é mais propriamente improvislumbração do possível vivido, e, como tal, desdobrado em sua urgência/emergência. Mais especificamente, como vivência que é — não reflexão, não teorização, não comportamento –, a improvisação, impróvislumbração, é o modo de ser que propriamente favorece e provê o modo de vivência, o âmbito, o momentum, no qual o possível é possível, e se desdobra. No qual é possível a experimentação fenomenológico existencial, a interpretação fenomenológico existencial, a hermenêutica fenomenológico existencial, o contato.

E, diga-se de passagem, de um modo mais sumário, a criação, a criatividade.

Uma das características qualitativas mais fundamentais do vislumbre do possível é a propriedade da sua temporalidade peculiar, de seu ritmo sui generis, deslumbrante (decaente?) e singular. Um ritmo que se nos dispomos a atualizá-lo é soberano e insubmisso em seu ciclo de vislumbre e deslumbre. Não é à toa que Heidegger falará de Ser e Tempo… E que Octavio Paz comentará algo como: algo passa com o ritmo, e somos nós próprios que passamos…

Este vislumbre, alumbre, deslumbre da outridade, da alteridade do possível, só se nos é dado na propriedade deste modo de ser que é o vivido do ser no mundo (não na reflexão e/ou no comportamento). De modo que é na vivência de ser no mundo que se constituem este vislumbre e desdobramento da possibilidade do que somos em ser no mundo.

Privilegiar este modo de ser do vivido de ser no mundo, esta vivência de ser no mundo, pré-conceitual, pré-reflexiva, é um modo de ser em prol da vislumbração, emprovisação, é improvisação, improvislumbração. (Num certo sentido vivência e improvisação são termos intercambiáveis em seus sentidos).

Daí que a existência, a resolução de questões existenciais, como ato ação do possível, a interpretação e a experimentação fenomenológico existenciais, a empathia, só se dêem no âmbito deste modo de ser que tão propriamente, e tão inconscientemente já, designamos como improvisação.

A condição de possibilidade da ação, de ser ator (que é ser outro, possibilitado/possibilitando-se), a condição de possibilidade de atuar, agir, vivenciar e atualizar possibilidades — criar/criar-se, resolver/resolver-se, e ao mundo que nos diz respeito — é situar-se (im) neste modo de ser, e privilegiar (pró) este modo de ser, no qual podemos prefigurar e prover, vislumbrar e provisionar — na improvisação — e possibilitar, o desdobramento desta alteridade possível, desta outridade emergente e/ou urgente como o nós mesmos/mundo. E que é possível apenas na vivência de ser no mundo. No vivido, que é improvisacional.

Agir, ser ator, ser outro, a ação, só se dão no âmbito deste modo de ser que é vislumbre do possível, no quando agora em mim; como diria Caetano. Que é ex-peri-ment-ação, e desdobra, possibilita, é hermenêutica da, interpreta a, alteridade do possível no nós mesmos/mundo ; no quando agora em mim. Ou seja, agir, ser ator, ser outro, a ação, dão-se própria e especificamente no âmbito deste modo de ser do vivido, pré-reflexivo, ser no mundo, empático, pático, patético, peripatético, pathoslógico (nada a ver com doença, naturalmente, apenas o logos do pathos), experimental, espiritual, que se configura no âmbito e momentum próprio do vivido improvisacional, da improvisação.

É este o modo de sermos no qual o possível é possível e possibilita-se, desdobra-se. Mas não como objeto.

Este modo de sermos do vivido de ser no mundo, este modo de ser da improvisação, não vigora, como vimos, no modo de ser do comportamento e da reflexão. Nos quais vigoram a não intenção de sujeitos e objetos, de causas, efeitos e realidades realizadas.

Este modo de sermos é dialogicidade, é encontro vivenciado, relação imediata, e improvisação, com a alteridade de mim mesmo, com o outro inter humano ou natural, com o sagrado, enquanto alteridades vivas e presentes, que pontualmente se desdobram em suas diferenças e diferenciações, no âmbito apenas do dialógico momentâneo, no âmbito dialógico da improvisação. Não como sujeitos ou objetos, causas ou efeitos, realidades realizadas.

Ainda que este modo de ser seja, como ação, na definição de Perls,não menos que o núcleo do real.

O dialógico improvisacional, a alteridade do possível, enquanto alteridade do mim mesmo, enquanto outro inter humano, enquanto outro natural não humano, ou sagrado, me demandam e me provêem, pessoal e intransferivelmente, pontualmente, no quando agora em mim, como outro possível e emergente e/ou urgente, como ator, em minha perdida diferenciação deles, e de mim mesmo. (…meu desafio maior seria ser ‘o outro dos outros’, e o ‘outro dos outros’ era eu… Clarice Lispector).

Não como um sub-jectum, mas como um jectum que pro-jecta-se na imediaticidade im-pro-vis-ação de seus possíveis emergentes e/ou urgentes, propulsivos. Na imediaticidade da dialogicidade da relação eu-tu, diria Buber.

Importa valorizar, afirmar, ser em prol (impro) deste modo de ser que permite o vislumbre e a sua ação, o possível e o seu desdobramento, que nos convocam, e que se projeta como nossa vivência de ser no mundo.

Meramente porque é este o modo de ser em que o possível é possível e se desdobra, o modo de ser em que o possível se atualiza, o modo de ser em que, enquanto tal, agimos e somos atores. E, em particular, o modo de ser em que, em sendo atores, somos outros e criativos. A identificação com o vivido e com o seu desdobramento, a identificação com o possível que lhe é inerente, e com o seu desdobramento configuram na momentaneidade da improvisação uma arte dramática. Drama significa ação; e ação, atu, atu ação, definem-se pela especificidade de serem vir a ser de possibilidade. De modo que o momentum vivido, dialógico, do vir a ser do possível, é momentum dramático. É arte, arte dramática. Na concepção e método da Gestalt Terapia, de uma abordagem fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia, os momentos peculiares de sua prática são momentos de uma arte dramática, e que se dão no âmbito da improvisação. De modo que ela se configura como o privilégio de uma dialógica e arte dramática da improvisação.

Valorizar, afirmar, favorecer, provisionar este modo de ser que é o vivido do ser no mundo é que é o sentido de improvisação é o que nos é dado pela improvisação.

Favorecemos, assim, este modo de ser da improvisação na concepção e método da Gestalt Terapia, e da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial, simplesmente, como dissemos, porque é nesse modo de ser que o possível é possível e se desdobra, que vislumbramos o possível em nosso pré-ser, e podemos ser e afirmar, em ação, a sua potência, e o seu desdobramento, em que podemos ser atores e outros.

Não é outro o sentido de Contato em Gestalt.

Contato, e o método da Gestalt Terapia — como uma metodologia que visa uma otimização do processo do contato –, só se dão no âmbito da improvisação, neste sentido. Daí ser Gestalt uma abordagem eminentemente improvisacional, de provisão, e provisação, no âmbito de sua concepção e método, de uma dialógica e arte dramática da improvisação, tanto para o profissional como para o cliente, como atitude e método de provisação do possível emergente e/ou urgente, e de seu desdobramento. Como atitude e método de otimização do processo do contato.

122004.

Da musicalidade da pintura sem coisas, à estética vivência ontofenomenológica da ação — sem objeto, nem sujeito –, pré reflexiva, na produção da obra de arte.


afonso da fonseca

Impressionismo, Expressionismo, e a libertação da ação…

Di Afonso H L da Fonseca, psicólogo.

Para D. Alzira, 
minha simpática vizinha, 
e minha competente e entusiasmada 
professora de História da Arte.

A instância do Impressionismo, e do Expressionismo, no desenvolvimento da Arte Europeia, muito mais do que meramente revelar uma posição no campo da metodológica da produção artística, representa um momento crucial de decisão, na experimentação e na invenção de si pelo homem, e na superação da alienação, no âmbito da civilização ocidental.

Ambas as revoluções, tanto o Impressionismo quanto o Expressionismo, trataram de uma insatisfação com a imposição de uma submissão da arte ao objetivismo. Que a anulava, e oprimia a arte e o ser humano, em importantes de suas possibilidades.

No caso dos Impressionistas, ainda timidamente, mas com artística obstinação, surge uma revolta no sentido da produção, na obra de arte, das variações e nuances, das particularidades do objeto. Variações e nuances que nunca poderiam se submeter à prescrição objetivista de registrar o objeto, a natureza, como uma cópia idealmente perfeita.

Dadas as absolutas particularidades da contingência do efetivo encontro e dialógica da estética relação com ele, e do registro deste encontro…

No caso do Expressionismo, aprofunda-se e amplia-se a revolta.

A revolta no sentido da reivindicação do direito de dizer, na obra de arte, o interdito. Na verdade, o não dito, ou o efetivamente maldito. Pela inflexibilidade da prescrição de produção da obra de arte como uma cópia fiel da natureza, do objeto. A prescrição objetivista. Como a presunção da produção da obra de arte como um objetivismo.

Equivocados estariamos, por completo, se pensássemos que se tratava de uma demanda pelos direitos do subjetivo, da subjetividade, de um subjetivismo.

Tratava-se, antes, na verdade, de uma reivindicação da produção da obra de arte em seus plenos direitos estéticos e poiéticos, como estética, como poiética; ou seja, como ação; como possibilitação, como projeto, como disegno, como perspectiva, como hermenêutica, como interpretação, fenomenológico existensial, como gestalt, como gestaltificação.

A reivindicação pela metodológica estética do ator. Do modo de sermos da ação.

Que, enquanto acontecermos, ontológica, fenomenológico-existencial, e dialogicamente, é um modo de sermos anterior ao modo de sermos do acontecido. No qual vigoram e ininsistem sujeito e objetos. O modo de sermos da ação, que anterior, e constituinte, da objetividade, e da subjetividade.

Alguma confusão conceitual, na formulação — dado que se tratava de artistas, e não de teóricos, ou filósofos. Mas, clareza, em termos da necessidade, do anseio, e do impulso de superação, e de libertação do objetivismo — nesta instância, na produção artística.

Efetivamente, em termos de afirmação e de libertação da ontofenomenológica da vivência humana da ação.

O que, naturalmente, significa a afirmação e a libertação da capacidade humana de criar, de criar-se, igualmente, criando o mundo que lhe diz respeito. De movimentar-se existencialmente, de emocionar-se, de conhecer ontologicamente, de superar-se. Pela afirmação da vivência, da dialógica formativa, de ser-no-mundo.

Os Hindus, os Taoístas, os Zen, sabiam-no já, há milênios.

Mas era uma novidade no Ocidente.

O momento da arte Impressionista, e da arte Expressionista, marca, de um modo indelével, o momento — revoltoso e incontornavelmente pueril momento, todo tingido de rebeldia — em que a Civilização Ocidental assumiu e configurou, de um modo mais explícito, ainda que restrito, a compreensão de que, enquanto humanos, não somos, apenas, o modo de sermos da dicotomia sujeito-objeto. O modo de sermos do acontecido, o modo de sermos do passado. O modo coisa de sermos — modo de sermos do ente.

Somos, igualmente, o acontecer, a ação o presente.

Em verdade, enquanto seres humanos — não simplesmente como artistas, mas, como seres humanos, efetivamente.

Se podemos produzir a vida e a nossa humanidade como reprodução, reflexivamente, como repetição, e como cópia – não como arte, mas como artifício, e fatalismo do artefato; podemos, igualmente, e de diversa maneira, produzir originalmente, como ação, esteticamente, como poiese, efetivamente como produção, e criação.

E, o modo de sermos desta produção ontológica, da estética e da poiese da ação, não é o modo de sermos em que somos sujeitos. Sujeitados… O modo de sermos em que experimentamos a dicotomia sujeito objeto. Não é, igualmente, o modo de sermos em que, sujeitos, confrontamos objetos.

É, antes, o modo sermos que em que somos, devimos, anteriormente à condição do sujeito e do objeto. O modo de sermos que é anterior à condição, reflexiva, em que nós, sujeitos, defrontamos objetos. E com eles nos relacionamos teoreticamente.

O modo ontofenomenológico de sermos é o modo de sermos em que somos ação, a vivência da ação, acontecer. Enquanto vivência do desdobramento de possibilidades.

Em que somos atores.

Paradoxalmente, a arte Europeia pelejara, desde sempre, com o recesso do Renascimento, com a imposição ideológica — como metodologia artística — da reprodução da natureza, da reprodução da coisa, da fiel reprodução do objeto.

Com imposição ideológica do objetivismo.

Obrigando-se a reproduzir-se como cópia da natureza, como cópia de objetos.

Ou seja, na metodológica do modo de sermos do fatalismo, da dicotomia sujeito objeto, e do objetivismo.

Com o Impressionismo o objeto, a coisa a ser copiada, esfumaçou-se, entrou em combustão, dissolve-se em contornos desfocados. E começa a ceder explicitamente à infusão potente da multifacetada e efêmera vivência do possível. Começa a ceder à infusão da hermenêutica do possível, da produção estética, e poiética, artística. Propiciada, como metodológica, pelo privilegiamento, e pela afirmação, da vivência ontofenomenológica.

Com efeito, era o possível, o potente, que se libertava, na superação da inestética prescrição da cópia da coisa, na inestética prescrição da cópia do objeto. Na superação da alienação…

Com o Expressionismo, radicaliza-se o movimento em direção à expressão da pulsão impulsiva, expulsiva, propulsiva, da vivência fenomenológico-existencial do pres-ente, do modo pré-coisa, pro-jeto — pré objetividade, e pré subjetivo –, modo de sermos da ação, da vivência do desdobramento de possibilidades, da gestaltificação.

Em direção à estética do desdobramento de sua força de possibilidade. Vividas como presente. Na atualidade da vivência de seu desdobramento. E, inexoravelmente, como impulsão expulsiva, ex-pressiva. Na elaboração e produção da obra de arte.

Como em Nietzsche, é interessante observar como, paradoxalmente, a alegação de cientificidade é utilizada no Impressionismo, como inovadora, e como justificativa. Alguns Impressionistas valeram-se da ciência — da ótica, do estudo das cores, e da luz — para justificar o seu método de distorção da objetividade do objeto. A multiplicidade das cores, a multiplicidade das modalidades da luz… Tudo isso justificava, na obra de arte impressionista, as distorções inerentes às multiplicidades de apresentações dos objetos, e as diversas impressões que deles registravam, na representação, um tanto quanto apresentativa, de suas insólitas obras primas.

Meteram-se, entretanto, neste sentido, num beco sem saída.

Na medida em que, nele, serviam-se exatamente da ciência objetivista…

Caminhavam já no sentido da Ontologia e da epistemologia de uma ciência pré-reflexiva e intensional, compreensiva e implicativa. Gestaltificativa. Uma ciência da fenomenologia do acontecer, e da dialógica da dramática da ação.

Mas, para eles, a ciência de que se valiam era, ainda, a ciência reflexiva, objetivista, extensional, e explicativa.

Ciência que efetivamente não lhes ajudaria na detonação da arte do objeto, em privilégio de uma arte da atualidade, da presença do possível, do dialógico, e da possibilidade do ser no mundo.

Nietzsche, por seu lado, saiu-se magistralmente da armadilha…

Quando percebeu que, era a ciência que efetivamente lhe daria suporte; mas, em específico, a ciência como cognição compreensiva, e implicativa, a ciência afirmativa, a ciência como ciência alegre, e emotiva, a sua gaya scienza.

E não a ciência positivista, a ciência objetivista…

Poderíamos dizer a arte de uma ciência da ação, uma ciência do ato, uma ciência do modo de sermos do acontecer; anterior ao modo de sermos do acontecido, de sujeito e dos objetos, e de sua viciosa dicotomização. A arte de uma ciência, a ciência de uma arte, que, enquanto tais, não poderiam ser objetivistas.

Porque, especificamente, posicionavam-se, e se posicionam, como ação, como interação, como interpretação, e hermenêutica fenomenológica. Anteriormente à constituição do objeto… Ou melhor, anteriormente à constituição de sujeito e de objetos, e de sua viciada dicotomização.

Tímidos, e confusos em suas explicações, os Impressionistas ainda continuaram fascinados com as promessas de uma ciência objetivista. Ainda indiferenciada entre explicação e compreensão, entre explicação e implicação…

Em mais de um sentido, pode-se dizer, os Expressionistas soltaram o verbo…

No sentido de que libertaram o logos na expressão artística formal.

E, de imediato, o resultado foi a emergente existência, numa obra de arte, de um grito pavoroso. Um pavoroso grito que, no mistério da simplicidade de suas linhas, redundou, até hoje, num tremendo silêncio constrangido…

O grito pavoroso de uma Europa, muda até então, que caminhava aterrorizada para as atrocidades da segunda guerra mundial. Um grito de dentro daqueles momentos terríveis em que a Humanidade se desconhece. Um grito feito pintura expressiva, Expressionista –, no quadro clássico do expressionista norueguês Edvard Munch (1863 – 1944).

Em sua ânsia, talvez, de modo ainda muito enfático e unilateral, os Expressionistas tenham se esquecido do objeto.

Porque, se havia, sempre, uma alteridade, um tu — como diria Buber –, na vivência de seu processo produtivo, na vivência da poiese de suas produções artísticas, nelas não se apresentariam objetos, acontecidos, realidades.

Mas possibilidades.

Uma arte da possibilidade, uma arte da vivência do possível. Uma arte da força plástica da estética, e da poiética, de ser no mundo.

Porque, nela, a vivência de seu processo produtivo, falava a fala, o logos, ontológico, fenomenológico existencial, da ação.

O modo de sermos do acontecer.

Anterior ao modo coisa de sermos do acontecido, no qual se dão sujeitos e objetos.

Tanto que poderíamos dizer que, um tanto raivosamente, talvez, o primeiro princípio de uma ética, estética, Expressionista era: foda-se o objeto. Foda-se a realidade. E, por aí, foda-se o princípio de realidade, e foda-se o positivismo do real. E foda-se ainda o trabalho de sua negatividade…

Se o sujeito, em sua subjetividade, acontecida, real, realizada, é espectador contemplativo, flexivo, reflexivo, sobre, e do objeto, acontecido; no modo ontológico de sermos do ator, fenomenológico existencial, e dialógico, acontecer, não somos sujeitos, nem somos confrontados por objetos, por coisas. Não somos coisas, nem somos confrontados por coisas.

Não contemplamos coisas, objetos, como espectadores.

Atores, no modo de sermos da ação, interagimos com a alteridade, com o tu. Que, jeto, pro-jeto, como dizia Heidegger, não é ob-jeto, de um sub-jeto…

Mas somos ambos, eu e tu, possíveis, na ambiguidade, possibilidades em dialógica, em interação.

E não coisas que se relacionam, na inestética e na inatividade, inércia, de suas respectivas impossibilidades. Na impossibilidade de sua inatividade, num relacionamento impossível.

Na ação, o ator possível — na vivência do desdobramento de sua possibilidade criativa, formativa — interage com o tu — igualmente possível, na vivência do desdobramento das possibilidades criativas, formativas, respectivas.

As condições de sujeito, por um lado, e de ator, por outro, implicam diferentes epistemologias. Na verdade diferentes Ontologias. Diferentes e diversos modos de sermos e de cognição.

Um ôntico, o do sujeito.

Lógico, ontológico o outro — o do ator, da ação.

O do sujeito, o modo acontecido de sermos da contemplação reflexiva de objetos, no qual, teorético, ele em específico é espectador. Ex-pectador.

Uma vez que especificamente fora da perspectiva, da perspectivação.

No outro modo de sermos, o modo de sermos da cognição ontológica do ator, somos a própria vivência da perspectiva. Perspectivação, em sua atividade. Ação, compreensiva e implicativa.

Ação, sempre compreensiva; meramente compreensiva; ou ação compreensiva e musculativa.

Sempre ação compreensiva, e implicativa.

E, em específico, inspectação, o modo de sermos do inspectador. Enquanto tal.

Enquanto que o modo cognitivo de sermos do sujeito é o modo de sermos do espectador. Espectador – expectador –, extensivo, extensional, extensão, extensão do extensivo espectador de objetos. Expectação.

Já que especificamente fora da perspectiva, da perspectivação, do presente. Espectador, expectador, extensivo, da ação, da atualidade, da dialógica da vivência do desdobramento de possibilidades.

Da gestaltificação.

Era pirada, inspirada, a compreensão do moscovita Wassily Kandinsky (1866 – 1944), quando intuía que era música a produção e o resultado de sua pintura.

Efetivamente, tudo é música.

Em especial, o ontológico vivencial fenomenológico insistênsial, exsistensial.

Sabemos até que o cristal é musical, se com ele sintonizamos.

Definitivamente, então, o vivencial é musical.

E, naturalmente, a arte, a pintura vivencial, é música.

Daí a precisão e a importância particular da constatação de Kandinsky.

Kandinsky evoluiu para a arte da pintura abstrata, sob o pressuposto — talvez influenciado pelo Nietzsche de O nascimento da tragédia — da música como uma arte não formativa de coisas. Uma pintura musical abstrata, e musicalmente produzida.

Com efeito, talvez Kandinsky não percebesse, apesar da importância de sua pintura abstrata, que a questão, em essência, não era a da ausência de coisas materiais, na obra, na pintura.

Mas a questão do modo próprio da experiência de sua produção. Que não é a produção que se dê, na sua momentaneidade instantânea, no modo acontecido de sermos, no qual habitam sujeitos que se fletem, e refletem, sobre objetos, que se lhes confrontam.

A questão da produção artística como ação, efetiva e especificamente, no modo de sermos do presente.

O modo de sermos ontologicamente pré-reflexivo. Que em sua duração e decaimento conflui para o reflexivo, e o constitui, em sua conclusão. E que, assim, lhe é especificamente anterior, e constituinte.

O modo de sermos da ação. No qual, ação, não somos sujeitos, nem confrontamos objetos. Ainda que, incontornavelmente, confrontemos a alteridade, um tu, que se contrapõe, como possibilidade. Na medida em que, igualmente, constituímo-nos e nos desdobramos como possibilidade.

De modo que eu e tu se conjugam na dialógica da produção e do desdobramento, ação, na produção e no desdobramento de possibilidades e de sentidos.

Da musicalidade de uma obra sem objetos, à musicalidade da experiência da ação. Anterior a sujeitos e objetos.

Assim foi a busca e a afirmação do Expressionismo. Como momento humano de resistência às dominações mais primitivas da política da existência. Como resistência às dominações que pretendiam e pretendem expropriar o ser humano de sua inerência como presente, e como possível. Como ação. E como ator. Como criador.

Assim, com a sua experimentação fenomenológico insistemsial gestaltificativa, o Expressionismo ensinou ensinamentos fundamentais. Tanto para a Filosofia, como para a Fenomenologia, para as ciências, para a Ciência, para a cultura, e para as culturas humanas.

BIBLIOGRAFIA

BUBER, Martin Eu e Tu.

CARDINAL, Roger O Expressionismo. Rio, Jorge Zahar, 1984.

GOMBRICH, E H, A história da arte. LTC, Rio de Janeiro, RJ, 2013.

HEIDEGGER, Martin Ser e Tempo.