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Vislumbre-e-ato do possível propulsivo Dialógica e arte dramática da improvisação

afonso da fonseca

Di Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

Sobre o sentido e importância do improvisativo na concepção e método da Gestalt Terapia e da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial

Laboratório Experimental de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial.

Os segredos da arte da espada consistem na criação de uma certa disposição mental que se faz sempre pronta para responder instantaneamente, quer dizer, i-mediatamente (…). Na medida em que o treino técnico é de grande importância,ele é, no final de contas, algo de acrescentado e adquirido artificialmente, conscientemente, calculativamente. A menos que a mente que se vale da habilidade técnica sintonize-se com um estado de máxima fluidez e mobilidade, qualquer coisa adquirida ou superimposta perde a espontaneidade do desenvolvimento natural. Este estado prevalece quando a mente está desperta para o satori. O que quis o espadachim foi fazer com que a disciplina se ativesse a esta concepção. Esta concepção não pode ser ensinada por nenhum sistema especialmente desenvolvido para este fim, ela deve crescer de dentro simplesmente. Na verdade, o sistema do mestre não era de fato um sistema no sentido próprio do termo. Mas existia um método “natural” em sua aparente loucura (…).
D.T Suzuki in ZEN AND JAPANESE CULTURE.

Gestalt Terapia — e qualquer abordagem fenomenológico existencial — tem a improvisação, a soberania da valorização do momentum improvisacional, como uma de suas características fundamentais.

Fundamental porque, em particular, é a im-pro-vis-ação –, este modo de ser ativo, que provê um vislumbre (Heidegger diria pré-compreensão) do possível e da possibilidade de seu desdobramento –, uma condição básica da perspectiva existencialista, da ontologia, da fenomenologia existencial, da concepção e método da Gestalt Terapia e de uma abordagem de psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. Grosso modo, o empirismo do vivido fenomenal é e permite a improvisação, como âmbito dialógico no qual o possível, o ato, a ato ação, se vislumbram, são possíveis e, efetivamente, se desdobram.

Daí ser interessante qualificar o que significa, e a importância, desta característica da improvisação na fundamentação filosófica, concepção e método da Gestalt Terapia e das abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e psicoterapia..

Nos círculos sérios e respeitáveis, moralistas em geral, a idéia em geral de improvisação é vista com um respeitável e sério balançar de cabeças, olhares reprovadores, bocas tronchas e risos sarcásticos…

E, diga-se de passagem, não há como não concordar, diante do sentido da “improvisação” num sentido vulgar e pobre: não estar preparado, não estar pronto diante de uma tarefa assumida. E “improvisar”, como lançar mão de capacidades ou recursos impróprios, inadequados, limitados, insuficientes para a responsabilidade que se tem diante, e para a qual não se teve o cuidado de se preparar, ou de saber, ou não, se podia estar preparado…

É certamente por isto que num certo momento o I Ching comenta, “…tudo que importa é estar preparado…”

De passagem, também se diga, que é uma soberba forma de incompetência o recurso habitual, mecânico, ao premeditado, ao comportamental repetitivo, aí incluído o técnico, ou ao reflexivo evitativo, quando a ação é requerida, a atualização, atu ação que interpreta o possível, e que só se possibilita no âmbito do improvisacional

Não é à improvisação num sentido vulgar que nos referimos.

A improvisação, tal como ela se configura existencialmente, e na prática de uma abordagem fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia, exige preparo…

O sentido vulgar de improvisação, e o moralismo, não podem obscurecer o sentido germinal da idéia de improvisação, e a fundamental importância não apenas deste sentido maior, mas, em particular, desta modalidade de ser na condição humana, em particular no desdobramento de suas questões existenciais. E, portanto, na fundamentação filosófica, concepção e método de uma abordagem de psicologia e de psicoterapia fenomenológico existencial.

Não é certamente exagero nem impróprio dizer-se que só existe ação na improvisação. E ação especificamente entendida como o vir-a-ser, ato ação, do possível…

Nietzsche chama a atenção para isso. Ele observa ( ) que, em geral, pensamos que premeditamos uma ação, e agimos de acordo com o premeditado. A premeditação, não obstante, é uma coisa — que pode inclusive não ser da ordem da ação, pode ser da ordem do comportamento, ou da reflexão, por exemplo — que efetivamente não são ação –; a ação é outra coisa, ou seja: a ação é um outro modo de ser.

A ação é um mistério…, diria Nietzsche ( ).

Como modo de ser, a reflexão, já é um re-torno à memória de um vivido, que em seu momento próprio foi ativo, mas que já se foi como vida vivida, ativa, encarnada; digo, não abstrata… É re-presentação, e não presentação…

O comportamento, aí incluída a técnica, é atividade estruturada passadamente. É repetição de formas padronizadas, condicionadas de atividade, para a qual já se pode ter uma expectativa.

O que deles, da ação e da reflexão, distingue a ação é o vir a ser de possibilidades, o re-torno, re-volta do possível. A ação, atu ação, é este re-torno, esta re-volta, do possível, a ação atu aliza o possível propulsivo.

Assim, o que caracteriza o especificamente ato, a ação, é que neles (uma) possibilidade(s) se atualiza (m), desdobra(m)-se, vem (vêm) a ser. Possibilidade que está extinta já ao nível dos modos de ser do comportamento ou da reflexão.

E aí é que está a questão. Carecemos vitalmente da reflexão e do comportamento. E eles são como “estar com os calcanhares no chão”. Nossa vida cotidiana carece do reflexivo afastamento, afastamento da vivência do modo de ser do vivido, para instrumentar-se, e contingenciar novas formas e possibilidades de ação. Necessitamos em nossa vida cotidiana da atividade padronizada e repetitiva do comportamento, e da reflexão, no desdobramento de funções igualmente padronizadas e repetitivas.

Num dado momento a ação seria, metaforicamente, como levantar-se na ponta dos pés. Não podemos permanecer na ponta dos pés. Daí que precisamos da reflexão e do comportamento.

No momento todavia da ação, da atuação, atualização de possibilidade, a reflexão e o comportamento não dão conta.

Por mais que estejamos adestrados neles, por mais que tentemos o seu modo específico de ser, inclusive (no que chamamos de) neuroticamente. Na reflexão e no comportamento ocorre como na metáfora de Buber: por mais que embaralhemos um baralho: as cartas permanecerão sempre as mesmas. Apenas a repetição.

O momento da ação é o momento da necessidade do possível, o momento da criação e da atualização do novo. Da experimentação que lhes permite.

Daí que Fritz Perls observa: as questões existenciais humanas só se resolvem experimentalmente.

Ou seja, pelo modo de ser do vivido e do desdobramento do vivido, no qual o possível, como incontornável dimensão ontológica, é possível e se desdobra. Em especial porque o comportamento e a reflexão, exteriores ao nosso modo de ser vivencial, não acessam a nossa dimensão ontológica do pré-ser, do possível “em nós” e do seu desdobramento. O comportamento e a reflexão não acessam, por impróprios, esta dimensão ontológica vivencial de nosso ser em que o possível é possível e se desdobra; a dimensão de nosso ser onde vigoram as possibilidades e a possibilidade de sua atualização e desdobramento. Possibilidade esta cuja vivência chamamos de experimentação.

O modo de ser da ação está fora, assim, do modo de ser da reflexão e do comportamento. De forma que o modo de ser próprio da ação, da atuação, atualização de possibilidades, é pré-reflexivo, vivido, e não comportamental.

Por definição, a ação, que atualiza possibilidades, não é comportada. O novo, a ação, não são da esfera do comportamento. A ação não é reflexiva, não é da esfera da reflexão.

A ação é própria deste modo de ser que é pré-reflexivo, o vivido, ser no mundo, o fenomenal, fenomenativo. Este modo de ser que, ontologicamente, contém, caracteristicamente, o vislumbre do pré-ser, o vislumbre do possível, em seu caráter propulsivo, em sua emergência e/ou urgência.

O que é próprio assim deste modo de ser — que não é reflexão, nem comportamento, e que é o vivido, fenomenal, pré-reflexivo, e pré-conceitual, — é que ele, caracteristicamente, além de ser vivido, pré-reflexivo e pré-conceitual, é sempre (vis) lumbre, lumbre (brilho, aparecimento, acontecimento) da emergência e/ou urgência vivida do possível, da possibilidade. Que se apresenta como emergência e/ou urgência de uma alteridade, de uma outridade, com relação ao nós mesmos, na qual estamos indissociavelmente, intencionalmente, vinculados…: Pré-ser, como diria Heidegger, possibilidade vislumbrada, e que, em sua força de possum, se desdobra como possível propulsivo em nosso ser no mundo…

É essa vislumbrada, vislumbre, vislumbração, da outridade, possível (possibilidade, potente, em sua emergência e/ou urgência, como vivência da possibilidade propulsiva que se desdobra como o “nós” mesmos/mundo, enquanto somos/vimos a ser) que se configura especificamente o como o vis vislumbre — da improvisação. (É interessante observar como vislumbre é uma palavra intencional, fenomenal. Como ela integra o ver com o brilho do visto, o vis e o lumbre).

Ou seja: esta vislumbração do possível é própria deste modo de ser, que é visação, ação vis-a-vis com a outridade do possível, pré-compreensão, que se dá como e na
im pró vis ação, e que é ação no âmbito deste nosso modo de ser vivencial, fenomenal, fenomenativo.

Na verdade, a improvisação é mais propriamente improvislumbração do possível vivido, e, como tal, desdobrado em sua urgência/emergência. Mais especificamente, como vivência que é — não reflexão, não teorização, não comportamento –, a improvisação, impróvislumbração, é o modo de ser que propriamente favorece e provê o modo de vivência, o âmbito, o momentum, no qual o possível é possível, e se desdobra. No qual é possível a experimentação fenomenológico existencial, a interpretação fenomenológico existencial, a hermenêutica fenomenológico existencial, o contato.

E, diga-se de passagem, de um modo mais sumário, a criação, a criatividade.

Uma das características qualitativas mais fundamentais do vislumbre do possível é a propriedade da sua temporalidade peculiar, de seu ritmo sui generis, deslumbrante (decaente?) e singular. Um ritmo que se nos dispomos a atualizá-lo é soberano e insubmisso em seu ciclo de vislumbre e deslumbre. Não é à toa que Heidegger falará de Ser e Tempo… E que Octavio Paz comentará algo como: algo passa com o ritmo, e somos nós próprios que passamos…

Este vislumbre, alumbre, deslumbre da outridade, da alteridade do possível, só se nos é dado na propriedade deste modo de ser que é o vivido do ser no mundo (não na reflexão e/ou no comportamento). De modo que é na vivência de ser no mundo que se constituem este vislumbre e desdobramento da possibilidade do que somos em ser no mundo.

Privilegiar este modo de ser do vivido de ser no mundo, esta vivência de ser no mundo, pré-conceitual, pré-reflexiva, é um modo de ser em prol da vislumbração, emprovisação, é improvisação, improvislumbração. (Num certo sentido vivência e improvisação são termos intercambiáveis em seus sentidos).

Daí que a existência, a resolução de questões existenciais, como ato ação do possível, a interpretação e a experimentação fenomenológico existenciais, a empathia, só se dêem no âmbito deste modo de ser que tão propriamente, e tão inconscientemente já, designamos como improvisação.

A condição de possibilidade da ação, de ser ator (que é ser outro, possibilitado/possibilitando-se), a condição de possibilidade de atuar, agir, vivenciar e atualizar possibilidades — criar/criar-se, resolver/resolver-se, e ao mundo que nos diz respeito — é situar-se (im) neste modo de ser, e privilegiar (pró) este modo de ser, no qual podemos prefigurar e prover, vislumbrar e provisionar — na improvisação — e possibilitar, o desdobramento desta alteridade possível, desta outridade emergente e/ou urgente como o nós mesmos/mundo. E que é possível apenas na vivência de ser no mundo. No vivido, que é improvisacional.

Agir, ser ator, ser outro, a ação, só se dão no âmbito deste modo de ser que é vislumbre do possível, no quando agora em mim; como diria Caetano. Que é ex-peri-ment-ação, e desdobra, possibilita, é hermenêutica da, interpreta a, alteridade do possível no nós mesmos/mundo ; no quando agora em mim. Ou seja, agir, ser ator, ser outro, a ação, dão-se própria e especificamente no âmbito deste modo de ser do vivido, pré-reflexivo, ser no mundo, empático, pático, patético, peripatético, pathoslógico (nada a ver com doença, naturalmente, apenas o logos do pathos), experimental, espiritual, que se configura no âmbito e momentum próprio do vivido improvisacional, da improvisação.

É este o modo de sermos no qual o possível é possível e possibilita-se, desdobra-se. Mas não como objeto.

Este modo de sermos do vivido de ser no mundo, este modo de ser da improvisação, não vigora, como vimos, no modo de ser do comportamento e da reflexão. Nos quais vigoram a não intenção de sujeitos e objetos, de causas, efeitos e realidades realizadas.

Este modo de sermos é dialogicidade, é encontro vivenciado, relação imediata, e improvisação, com a alteridade de mim mesmo, com o outro inter humano ou natural, com o sagrado, enquanto alteridades vivas e presentes, que pontualmente se desdobram em suas diferenças e diferenciações, no âmbito apenas do dialógico momentâneo, no âmbito dialógico da improvisação. Não como sujeitos ou objetos, causas ou efeitos, realidades realizadas.

Ainda que este modo de ser seja, como ação, na definição de Perls,não menos que o núcleo do real.

O dialógico improvisacional, a alteridade do possível, enquanto alteridade do mim mesmo, enquanto outro inter humano, enquanto outro natural não humano, ou sagrado, me demandam e me provêem, pessoal e intransferivelmente, pontualmente, no quando agora em mim, como outro possível e emergente e/ou urgente, como ator, em minha perdida diferenciação deles, e de mim mesmo. (…meu desafio maior seria ser ‘o outro dos outros’, e o ‘outro dos outros’ era eu… Clarice Lispector).

Não como um subjectum, mas como um jectum que pro-jecta-se na imediaticidade im-pro-vis-ação de seus possíveis emergentes e/ou urgentes, propulsivos. Na imediaticidade da dialogicidade da relação eu-tu, diria Buber.

Importa valorizar, afirmar, ser em prol (impro) deste modo de ser que permite o vislumbre e a sua ação, o possível e o seu desdobramento, que nos convocam, e que se projeta como nossa vivência de ser no mundo.

Meramente porque é este o modo de ser em que o possível é possível e se desdobra, o modo de ser em que o possível se atualiza, o modo de ser em que, enquanto tal, agimos e somos atores. E, em particular, o modo de ser em que, em sendo atores, somos outros e criativos. A identificação com o vivido e com o seu desdobramento, a identificação com o possível que lhe é inerente, e com o seu desdobramento configuram na momentaneidade da improvisação uma arte dramática. Drama significa ação; e ação, atu, atu ação, definem-se pela especificidade de serem vir a ser de possibilidade. De modo que o momentum vivido, dialógico, do vir a ser do possível, é momentum dramático. É arte, arte dramática. Na concepção e método da Gestalt Terapia, de uma abordagem fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia, os momentos peculiares de sua prática são momentos de uma arte dramática, e que se dão no âmbito da improvisação. De modo que ela se configura como o privilégio de uma dialógica e arte dramática da improvisação.

Valorizar, afirmar, favorecer, provisionar este modo de ser que é o vivido do ser no mundo é que é o sentido de improvisação é o que nos é dado pela improvisação.

Favorecemos, assim, este modo de ser da improvisação na concepção e método da Gestalt Terapia, e da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial, simplesmente, como dissemos, porque é nesse modo de ser que o possível é possível e se desdobra, que vislumbramos o possível em nosso pré-ser, e podemos ser e afirmar, em ação, a sua potência, e o seu desdobramento, em que podemos ser atores e outros.

Não é outro o sentido de Contato em Gestalt.

Contato, e o método da Gestalt Terapia — como uma metodologia que visa uma otimização do processo do contato –, só se dão no âmbito da improvisação, neste sentido. Daí ser Gestalt uma abordagem eminentemente improvisacional, de provisão, e provisação, no âmbito de sua concepção e método, de uma dialógica e arte dramática da improvisação, tanto para o profissional como para o cliente, como atitude e método de provisação do possível emergente e/ou urgente, e de seu desdobramento. Como atitude e método de otimização do processo do contato.

122004.

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