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Interpretando Max Reinhardt

afonso da fonseca

Di Afonso H. Lisboa da Fonseca, psicólogo.

O que intentava max rheinhardt? O que com ele aprendeu Perls e a Gestalt Terapia?

Para quem estuda a Gestalt Terapia, não terá certamente passado despercebido a marcante influência na formação de Fritz Perls da presença de Max Rheinhardt. Max Rheinhardt, no entanto, não chega a ser nem um ilustre desconhecido entre nós: é meramente um desconhecido. Apesar de sua influência fundamental no desenvolvimento do teatro e do cinema, em especial do teatro e do cinema expressionistas, nas primeiras décadas do século XX, na Alemanha; e da seminal importância de suas concepções no desenvolvimento da concepção e método da Gestalt Terapia.

Fritz Perls e Max Reinhardt são produtos de um mesmo tempo, de um mesmo momento histórico e cultural. Ou seja, a Berlim dos inícios do século XX, até a década de 30, mais especificamente 1933. Perls participou do empreendimento teatral de Rheinhardt, em especial do desdobramento de suas idéias revolucionárias com relação ao teatro. Desde os quatorze anos Perls participou de atividades teatrais inspiradas nas concepções de Rheinhardt, e estas tiveram um papel fundamental no desenvolvimento da concepção e método da Gestalt Terapia, por parte de Fritz Perls.

Max Rheinhardt nasceu Maxmilian Goldmann. No início da juventude, quando começou a lidar com teatro, mudou o seu nome. Tendo estudado economi e finanças bancárias, abandonou o ramo das finanças, para dedicar-se de corpo e alma ao teatro. Foi diretor de teatro, intérprete e importante proprietário de teatro na Alemanha e na Áustria anterior no nazismo. Sobretudo, foi um teatrólogo, revolucionando, no sentido da modernidade e do teatro expressionista, as concepções do desempenho e da representação teatral. Concepções que prevaleciam, até então, desde o Renascimento.

Fundamentalmente, o teatro naturalista de Max Reinhardt, que será uma influência fundamental no desenvolvimento do teatro e do cinema expressionistas, buscava a coragem na expressividade e interpretação da singularidade pessoal. Reinhardt abandonou a perspectiva de todo Realismo, em direção ao Expressionismo. Ou seja em direção a uma interpretação que se centrava no privilégio da vivência subjetiva, e na sua expressividade performática, sem uma submissão à reprodução de uma realidade objetiva.

Ao mesmo tempo, Reinhardt buscava reduzir, num sentido literal e prático, o espaço entre o ator formal e o público, entre o palco e a platéia. Num de seus teatros, Reinhardt estudou e operacionalizou concepções do palco que o situavam no âmbito da platéia, e que facilitava efetivava a comunicação entre os atores e a platéia, e facilitava a expressividade dos espectadores, que, enquanto tais, deixavam de ser passivos para se constituírem como atores e artistas, intérpretes.

Rheinhardt participava do desvelamento do caráter ilusório da realidade objetiva do Positivismo. E, em particular do primado do princípio de realidade. Reinhardt participava, em particular, do desvelamento das implicações eminentemente destrutivas e esterilizantes do radicalismo da submissão à realidade objetiva. Mais especificamente, da subordinação do existencial à ilusão da realidade objetiva e de suas demandas. Muito particularmente, na medida em que o existencial não é da ordem da realidade, mas é, fortemente, e no que lhe é essencial, da ordem do movimento e potência do possível e da possibilitação. Ao mesmo tempo em que não é, o existencial, da ordem das relações sujeito-objeto, subjetividade-objetividade, ou da ordem das relações de causa e efeito, ou da esfera da utilidade.

Neste sentido, Reinhardt comunga do ethos expressionista de conferir toda atenção à perspectiva do vivencial, destronando e absolutamente relativizando, o radicalismo realista, por sua impertinência e impropriedade existencial. Impertinência e impropriedade em termos de sensibilidade, de criação, de criatividade, e das forças trágicas da alegria.

Na medida em que buscava reduzir, e mesmo eliminar, a distância entre atores e espectadores, a distância entre o palco/atores e a platéia/público, Rheinhardt militava experimental e poderosamente pela idéia de que a arte cênica não é uma arte apenas de artistas formais, não é meramente uma arte do palco. Na verdade somos, todos, efetivamente atores e artistas, e carecemos fundamentalmente de exercemo-nos efetivamente como tais. Uma vez que esta condição constitui-se como a qualidade básica da existência e da condição humana.

Somos ontologicamente intérpretes, hermeneutas, num sentido fenomenológico existencial. A existência é fundamentalmente impregnada, e demandante, assim, de teatralidade. E só existimos efetivamente, na efetividade da existência, na medida em que nos arriscamos a assumir a nossa vivência mais particular, absolutamente singular, o seu caráter propulsivo, a sua potência e projetatividade — que, como tal, quer constituir-se em expressão — e efetivamente a expressamos/interpretamos.

Das concepções de Reinhardt, via Perls, a Gestalt Terapia herdou a disposição de um terapeuta intérprete experimental de sua vivência imediata (não conceitual, não técnico, não científico, nem comportamental). Como modo de mobilização e potencialização dialógica do cliente como intérprete, ator e artista dos vetores da dramática de sua existência, em específico de suas possibilidades e possibilitações.

A Gestalt Terapia se posta fundamentalmente na perspectiva de que a característica da existência, inclusive, e em particular na resolução de questões e dificuldades existenciais, deriva do fato de que somos intérpretes experimentais do desdobramento de nós mesmos, de nossas vividas possibilidades de ser, na propulsividade e modulações que lhe são próprias.

De modo que toda a concepção e método da Gestalt Terapia direciona-se praticamente no sentido de potencializar o cliente como intérprete do processo de constituição/superação de sua própria singularidade e singularização, nas condições de sua atualidade e atualização. No sentido da expressividade de suas questões existenciais, da resolução e superação destas. No sentido de potencializar o cliente como criador, intérprete, ator e artista.

Reinhardt desenvolveu o seu fecundo trabalho como teatrólogo, diretor de teatro, ator, e proprietário de vários teatros, inicialmente na Áustria, e depois na Alemanha, Berlim. Até que, com o desenvolvimento do nazismo, teve os seus bens confiscados, e foi obrigado a fugir da Alemanha. Tendo ido para os Estados Unidos, prosseguiu sua atividade teatral, dirigindo representações de autores clássicos, e de autores expressionistas, e com sua atividade cinematográfica. Um de seus filhos, jurista, foi escolhido para a Suprema corte dos Estados Unidos pelo presidente Jimmy Carter.

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